A volta de Silvia Chamecki
A volta de Silvia Chamecki
A atriz Silvia Chamecki, depois de 22 anos fora de Curitiba, retorna à cidade disposta a reconquistar os palcos da cidade
Zeca Corrêa Leite
O público mais jovem frequentador de teatro, talvez jamais tenha ouvido falar da atriz Silvia Chamecki. O desconhecimento não é somente da platéia - atinge também os estudantes de artes cênicas, que palmilham o mesmo caminho trilhado pela artista. Explica-se a razão: há 22 anos Silvia deixou Curitiba para morar no Rio de Janeiro. Nos seis anos cariocas, fez televisão (TV Globo) e teatro. Depois embarcou com destino ao Canadá e assim se passaram mais 16 anos.
Para seus fiéis admiradores, Silvia é um nome que ainda hoje inspira respeito, independente do tempo em que esteve fora. Começou na carreira atuando em peças infantis, ao lado de Armando Maranhão. Participou de uma extensa turnê promovida por Paschoal Carlos Magno, e mais tarde passou ao teatro adulto.
Entre outros trabalhos cita em A Família, de Oduvaldo Vianna Filho, direção de Clóvis Levy, que percorreu todo o Estado; A Casa de Bernarba Alba e El Grande de Coca-Cola, encenada na boate Bugatti, dirigida por Oraci Gemba; e em O Elevador, peça que Antonio Carlos Kraide dirigiu e interpretou, ao lado de Dudu Barreto Leite e Ariel Coelho. No mínimo, fiz aqui umas 30 peças, diz.
De volta à terra natal, Silvinha Chamecki faz planos para trabalhar com seus colegas dos tempos em que ainda vivia aqui, ser dirigida pelos novos valores surgidos nas levas mais recentes, travar outras amizades. Fora do palco há alguns meses, a atriz fala da saudade que está sentindo do tablado. E da expectativa em reatar sua vida artística na cidade, encontrando os colegas com os quais contracenou há mais de 20 anos, e criando novas amizades, com a garotada que começa a escrever sua história. Em tempo: depois da entrevista, caiu do céu a proposta de montar A Traição de Carmen Miranda, monólogo escrito por Silvinha, com direção de Margarida Rauen. Feliz da vida, a atriz ensaia intensivamente para estrear em plena época do Festival de Teatro. Será de 25 a 28 deste mês, no Espaço Cena Um.
Folha - Mais de 20 anos depois, você retorna a Curitiba. Por que?
Silvia Chamecki - Eu voltei porque, depois de 16 anos, a gente começa a sentir muita saudade, muita falta de família. Por exemplo: não vi nenhum casamento, nenhum nascimento na minha família. Você vai perdendo o contato. Outra coisa: o meu filho veio embora ao Brasil e minha motivação de ficar no Canadá cortou pela metade. Eu também tinha me separado de um grupo de teatro em que estávamos juntos há mais ou menos cinco anos, e que se acabou. Então tinha várias coisas que me diziam que meu casamento com o Canadá estava chegando ao fim. Eu vim para cá, por causa de um casamento na família e gostei.
Folha - E o teatro que se faz aqui, mudou?
Silvia Chamecki - Sim, mudou bastante no sentido positivo. Tem diretores novos, maravilhosos. Fui assistir a uma peça de Felipe Hirsh, Juventude e gostei demais da direção dele; fui assistir a uma peça dirigida por Marcelo Marchioro, O Ventre do Minotauro, com Mario Schoemberger, As Kamikases, dirigida pela divina Cleyde Piasecki. Então me deu muita vontade de trabalhar na minha cidade; com os amigos meus que restam, porque muitos já se foram, e fazer novos colegas de trabalho. Além de tudo, quero trabalhar no meu idioma! É difícil a um ator representar em outro país, por melhor que fale a outra língua - no meu caso inglês e francês, porque morava no Quebec. Meus idiomas são fluentes, perfeitos - eu já tinha morado na França -, mesmo assim para um ator é quase fatal.
Folha - Você tem convites para trabalhar?
Silvia Chamecki - Não, mas estou escrevendo um projeto que tinha começado há muito tempo. Não adianta falar muito agora, porque ele não está pronto. Não tenho a menor idéia de como produzí-lo porque ainda não conheço muito bem os incentivos daqui. O projeto é baseado na minha experiência de todos esses anos de exílio. Não é que eu tenha ido embora porque me mandaram, nem tampouco o sistema político. Indiretamente, sem dúvida, o sistema em que a gente vivia em 82, colaborou com meu desejo de ir embora. Foi exílio por escolha. Tem coisas maravilhosas que quero contar, e outras nem tanto que poderiam ser evitadas pelos jovens que hoje pensam em sair do Brasil. Eu gostaria de poder compartilhar essa minha experiência. Bem, estou de volta ao mercado e gostaria muito de trabalhar com os novos diretores, com os antigos, fazer peça infantil, drama, comédia... O meu negócio é voltar ao palco, é isso que tenho vontade.
Folha - Você que trabalhou na TV canadense, poderia dizer como ela é?
Silvia Chamecki - A televisão tem novelas, casos especiais, cinema - que aliás, fiz bastante. Lá, todo ator tem um agente, nada se faz sozinho, por amizade ou por reconhecimento de trabalho. Tudo se faz com testes. Tem também três sindicatos, tanto inglês como francês, para cinema, teatro e televisão, e é um negócio muito complicado. Fui muito bem sucedida no sentido em que era membro ativo dos três: francês e inglês. No total fiz umas 40 produções.
Folha - No Canadá existe essa coisa de popularidade com o pessoal da TV, como acontece aqui?
Silvia Chamecki - Não, não tem o chamado star system. O público vai assistir às obras, mas não fica apegado ao ator e sim às obras. Não tem aquela coisa de idolatria que se tem aqui e nos Estados Unidos. É muito diferente. Um ator bem conhecido mesmo, que trabalha sem parar há mais de 30 anos, quando dá uma entrevista, mostra aquilo que gosta de fazer nas horas vagas: de cozinhar, de cuidar do jardim... Então vai falar das rosas do quintal da casa dele. Mas é tudo em termos de coisas do dia-a-dia, não tem essa história de que ele é maravilhoso e só seus belos olhos bastam. A mídia não idolatra ninguém, não vai mostrar artistas na piscina ou na boate. Ela exerce a crítica, aliás, saudável.
Folha - De volta a Curitiba você encontra outra geração no palco. Isso assusta?
Silvia Chamecki - De todas as inquietações, a de geração é a menor. A Regina Bastos era do meu grupo e está aí trabalhando ativamente; já conhecia a Cleyde Piasecki; o Marcelo Marchioro era meu fanzeco; a Fátima Ortiz também é da minha época. Não houve um terremoto fatal; só que tem gente nova, como sempre teve. E teatro tem papel para todo mundo. Sem dúvida que precisa de pessoas de 18, 25, 42, 50 anos... Tenho medo é de que as pessoas não gostem de mim.
Folha - Por que não gostariam?
Silvia Chamecki - Neste meio, nunca se sabe... Eu sei que quando fui embora correram vários boatos. Um que me magoou muito foi de que eu nunca quis dar depoimento sobre o Lápis, que foi um grande músico paranaense. Ficamos juntos muitos anos, e disseram que eu não quis falar sobre ele porque aquilo era coisa do passado. Mentira. De fato, eu estava casada, tinha uma criança pequena, meu marido tinha ciúmes, e eu procurava não criar problemas. Mas nunca me recusei a dar depoimentos. Outro boato foi de que eu teria dito que ia embora porque aqui ninguém prestava, o teatro não prestava para nada. Eu tenho orgulho de todo trabalho que fiz aqui, mas será que as pessoas sabem disso? Será que tem gente que ainda inventa coisas? Não sei, e me dá medo. A minha vontade é viver feliz na minha cidade, com a minha família, ir no Café do Teatro, encontrar amigos, tomar uma cerveja, bater papo, dar risada, fazer projetos, trabalhar. É isso que tenho vontade.





