A volta de Jesus Mary Chain
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segunda-feira, 20 de julho de 1998
Lúcio Ribeiro Agência Folha 
Com a permissão da blasfêmia, a notícia merece o badalo de sinos. Jesus está de volta e trouxe com ele um novo testamento. Há um mês circula pelas lojas de discos da Inglaterra o álbum Munki, abençoada obra que marca o retorno ao CD dos escoceses do Jesus & Mary Chain, banda que está para o rock/pop alternativo assim como a hóstia está para os cristãos.
Grupo que deve ganhar um capítulo à parte quando a enciclopédia roqueira deste século for escrita, o Jesus & Mary Chain foi precursor do guitar rock da virada da década.
Por causa da distorção iconoclasta de baixo e guitarra da segunda metade dos anos 80, manto sonoro de ligeiras melodias que falavam do amor sombrio, da chuva, da morte, o Jesus & Mary Chain ajudou a moldar o rock independente, ao lado de bandas como My Bloody Valentine (Inglaterra) e Sonic Youth (EUA).
Se o termo indie é mundialmente assimilado hoje, a culpa é muito do J&MC. O recém-lançado Munki acaba com uma lacuna de quatro anos entre a banda dos irmãos Jim e William Reid e os estúdios.
O novo disco celebra ainda o rompimento do J&MC com a mega Warner e traz o grupo de volta ao seio independente, em duas das mais descoladas gravadoras do planeta: a britânica Creation Records (de Oasis e Primal Scream) e a americana Sub Pop (primeiro lar do Nirvana). Munki deve ser lançado no Brasil apenas em outubro, pela Sony Music. Foi pela Creation do empresário Alan McGee, hoje ministro da música do governo Tony Blair, que o Jesus & Mary Chain estreou, em 1985, com o seminal Psychocandy.
Treze anos e oito álbuns depois, a banda continua soando ultramoderna. Em Munki, o Jesus & Mary Chain pega o rock em seu estado bruto, em crise de identidade, acrescenta 70 minutos de microfonia atordoante, lindas baladas, letras em desespero. Tudo como há 13 anos. E tudo cheirando a vanguarda.
Som barulhento e acústico. Microfonia apitando no ouvido e baladas calmas para a alma. Desfile de citações de figuras caras ao rock, como Elvis, Dylan, Bowie, Moe Tucker (Velvet Underground), Surf music, glam rock, indie music e punk, tudo misturado. Trechos das letras do disco servem como amostra do inesgotável potencial da banda e ainda passam o som independente a limpo. Não preciso de ninguém, não preciso de nada; eu preciso de rock-n-roll, diz a faixa de abertura, I Love RocknRoll.
Sou um maldito filho da mãe agora, mas já fui cool um dia, dispara William Reid em Birthday, o próximo single do álbum. Elvis está vivo e Dylan está morto, decreta Jim Reid em Fizzy. E o CD só está começando.
Depois vêm duas vozes femininas para contrabalançar as experimentações demolidoras do J&MC: Linda Reid debuta no vocal em Mo Tucker, enquanto Hope Sandoval, cantora da banda Mazzy Star, duela com Jim Reid na maravilhosa Perfume. Sandoval vence com seus sussurros. Munki resgata a energia que ficou arquivada no disco anterior da banda, Stoned & Dethroned, de quatro anos atrás, quando o J&MC optou por um caminho narcoacústico, de repouso.
Numa espécie de revisão de seu papel na música, a banda traz 17 canções que podem ser chamadas de 17 mandamentos para as novas bandas. Começando com I Love RocknRoll e terminando com I Hate RocknRoll.
Jesus voltou, mas ainda tem dúvidas quanto ao rock. Amém.


