A VOLTA DE 'CIDADÃO KANE'
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de agosto de 2001
Rodrigo Souza Grota<BR>De Londrina 
''Acho que qualquer obra é boa na medida em que exprime o homem que a criou''. Orson Welles talvez nem imaginasse, mas nessa sua sentença reside a comprovação que ''Cidadão Kane'' é sim o maior filme de todos os tempos e a maior obra de sua filmografia. Não que os seus outros filmes sejam menores, como ''A Marca da Maldade'' e ''A Dama de Shanguai'', duas obras primorosas, mas é em ''Kane'' que tudo nasceu. A grandiosidade do diretor e a maturidade do cinema.
Aproveitando o aniversário de 60 anos do lançamento do filme, a Warner Home Video prevê para setembro o lançamento mundial de uma versão luxuosa de ''Kane'' - um DVD duplo, contendo todos os extras da edição americana. No Brasil, a Continental Filmes tinha lançado em 1998, em sua primeira leva de DVDs, uma modesta versão para o filme. Agora, todos os atrativos a que ''Kane'' tinha direito estarão disponíveis aos colecionadores.
No primeiro disco, além do filme, há comentários de Welles e dos críticos Roger Ebert e Peter Bogdanovich (autor de ''Este É Orson Welles''). No segundo, os atrativos inéditos - a versão original do trailer produzido para o cinema; a filmagem da première de 1941; galeria de storyboards; o documentário ''A Batalha Sobre Cidadão Kane'', retratando o embate entre Welles e William Randholf Hearst; entrevistas com Welles, elenco e produtores; cenas raras da propriedade de Hearst em San Simeon; biografias do cineasta e de Hearst, e a famosa transmissão radiofônica de ''A Guerra dos Mundos'', que acabou atraindo toda a atenção dos americanos para um cidadão de 22 anos chamado George Orson Welles.
Aliás, muito do gênio criativo de Welles está expresso na idéia de adaptar o clássico de H. G. Wells para o rádio. De família aristocrática, Welles cresceu em meio a volumes de Shakespeare e Nietzsche, entre outras leituras. Aos 12 anos, já conhecia tudo do dramaturgo inglês, dizem. Em meio ao cenário americano dos anos 30, Welles era um homem raro. Tinha uma formação clássica, típica do século XIX, mas estava envolvido com recursos avançados, surgidos no século XX.
A instantaneidade do rádio, podendo registrar para a eternidade a voz de um ser humano, potencializou na mente de Welles o método de como se conta uma história. Adaptando clássicos do teatro e da literatura para o rádio, ele percebeu que um novo meio de comunicação surgia com seus truques próprios. E mais, tornando-se um meio de massa, o que se veiculava nas rádios era consumido pelo público quase como uma verdade.
E se brincássemos como essa impressão causada pelo rádio, pensou Welles. Surge aí todo o princípio que norteia a sua obra - a vontade de contar uma história ficcional como se fosse um relato jornalístico, de algo que ocorreu. A prosa de Joseph Conrad (que o diretor tanto adorava) tinha alguns desses elementos, mas foi em ''A Guerra dos Mundos'' que a idéia se consolidou. Welles adaptou o clássico de ficção científica em formato jornalístico, causando a confusão que todos sabem, pois ninguém conseguia mais discernir sobre a veracidade do que era veiculado.
Eis a jogada de mestre do cineasta. Em ''Kane'', e no restante de sua filmografia, Welles brinca com o público. Ele mostra a ficção em toda a sua complexidade, elaborando um retrato perfeito do que conhecemos por real. É tudo tão completo que pensamos - ''acho que isso aconteceu''.
Vejamos o caso de ''Kane''. Quando o crítico francês André Bazin diz que o cineasta revolucionou o cinema, é justamente pelo fato de Welles usar a profundidade de campo como elemento narrativo. Ela já existia, como propriedade da película, mas nenhum diretor havia pensado até então a usá-la como recurso. Surge aqui mais uma razão para se assistir a ''Citizen Kane'' seis décadas depois de sua estréia. Com o advento de nova tecnologia cinematográfica, e a cada vez mais propalada substituição da película pelo vídeo digital, muitos cineastas ainda não perceberam que se o formato tradicional for abandonado, toda a riqueza visual que a profundidade de campo permite será abandonada. Eis um alerta que uma revisão de ''Kane'' nos dias atuais evidencia.
Mas não é só essa a razão que contribuiu para que o primeiro filme de Welles fosse considerado desde os anos 60 o maior filme de todos os tempos. O caráter autobiográfico, talvez inconsciente para o cineasta durante a criação do roteiro, foi fundamental para a consolidação de uma obra-prima. Em entrevista a Bogdanovich, Welles confidenciou seu interesse em contar a história de Kane: ''Foi uma idéia que eu vinha acalentando há muito tempo - a de contar a mesma coisa várias vezes e mostrar a mesmíssima cena sob pontos de vista totalmente diferentes. Basicamente, a idéia usada mais tarde em ''Rashomon'' (de Akira Kurosawa). Mank (o co-roteirista Henry Mankiewicz) gostou e começamos a procurar o homem em torno de quem a história giraria. Alguma figura importante americana - não podia ser um político, porque seria preciso apontá-lo. Howard Hughes foi a primeira idéia. Mas chegamos rapidamente aos barões da imprensa''.
Mas a maior revelação de Welles ocorre quando ele explica o fascínio que surge da personagem de Charles Foster Kane. ''Tudo o que ele 'tinha' era o charme - além do dinheiro. Era um daqueles monstros afáveis, simpáticos, capazes de comandar a fidelidade das pessoas durante uns tempos sem dar muita coisa em troca. Com certeza não retribuía com amor; foi criado por um banco, não se esqueça. Usa o mesmo artifício do charme que esse tipo de gente costuma usar. De modo que, quando muda a primeira página, é com base numa espécie de charme, não por nenhuma convicção verdadeira... Charlie Kane era um devorador de homens.''
Se lembrarmos o que ocorreu com Welles em sua infância, concluímos que há muito do diretor em Kane. Logo após a morte da mãe, o cineasta passou a ser educado por um tutor, assim como o personagem. Aos 15 anos, Welles prefere não cursar a Universidade de Harvard e parte para a Espanha, onde intencionava ser pintor. Conhece na Irlanda a trupe liderada por Hiltopn Edwards, o Gate Theatre de Dublin, e ingressa no universo teatral. Junto a companheiros como Micheál Mac Liammóir, moldava-se a essência da obra de Welles - o caráter ilusório que nega o realismo, o naturalismo da expressão que permite a ambiguidade do real. Esse paradoxo evidente na linguagem do cineasta é permeado por outras características, como a extravagância barroca herdada de Shakespeare, a intempestividade admirada em Conrad, o lado sombrio do humano apreendido de Edgar Allan Poe, e muitas outras influências. Se o cinema nunca mais foi o mesmo depois de ''Citizen Kane'', é por que nenhum cineasta conseguiu posteriormente se retratar com tanta superioridade e requinte visual.


