A visibilidade do tempo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de junho de 2006
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Normalmente compreendemos de maneira imediata que espaço é informação. Parece algo evidente, como se nossos olhos estivessem eternamente enamorados do espaço, seguros por sua companhia.
Com o tempo ocorre algo diferente. Nem sempre o entendemos como informação. Talvez porque ele não está habituado a se esfregar em nossos olhos. Seu hábito é um pouco diferente, apenas sustentar nossos corpos no ar.
O espetáculo Sopro, apresentado pelo grupo brasileiro Lume no FILO, pode ser encarado como um drama onde o tempo ocupa o papel de personagem principal. Onde o tempo é tratado como informação. Ao espectador é concedida a possibilidade de estender o braço e, com as pontas dos dedos, tocar o tempo. Algo que pode ser compreendido apenas quando é retirado de seu estado comum, de seu cotidiano imediato.
A montagem do Lume parte da linguagem tradicional das artes cênicas japonesas (principalmente a dança butho e do teatro nô), para construir a experimentação de uma outra linguagem. Uma leitura própria da técnica do ator oriental para um novo contexto contemporâneo ocidental.
Em Sopro, o ator/dançarino (Carlos Simioni) trabalha com a concentração de informação corporal. Realiza a centralização do movimento físico em pontos específicos que circundam a própria ausência de movimento. Com o mínimo de gestos, cria a sensação da visibilidade do tempo.
Sopro pertence àquele tipo de trabalho cênico que solicita que o espectador deixe os pensamentos na ante-sala do teatro. Devidamente guardados em pequenos armários individuais para serem resgatados na saída. Um trabalho que não pede raciocínio estético, mas cumplicidade da percepção.
Como elemento impalpável, o tempo utiliza o movimento do corpo para falar sobre si mesmo. Movimentos nos quais se manifestam a vida em suas partículas elementares. Assim, é possível visualizar uma narrativa em Sopro. Uma narrativa que, pelas suas sutilezas, muito mais latente do que evidente, segue a idéia de que o tempo reside no espaço entre os corpos, entre as coisas e, principalmente, entre as intenções.
Em Sopro não há espaço para o meio termo. Diante dele, o espectador possui duas únicas possibilidades. Uma, seria entrar em sintonia e viver uma experiência intensa. Outra, seria não entrar em sintonia e acompanhar um espetáculo enfadonho e sem sentido. Não há tempo para o meio termo.


