A visão poética de Deus
Poemas de Rumi expressam o sagrado através do amor
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de abril de 2019
Poemas de Rumi expressam o sagrado através do amor
Celia Musilli - Grupo Folha 

Às vezes retomo a poesia dos sufistas. O sufismo é a corrente contemplativa do islamismo, nascida na Pérsia, trata das coisas do céu e da terra de maneira original: através do canto, da dança e da poesia. Já ouviram falar na dança dos dervixes? Trata-se de uma espécie de transe que propicia o contato com a divindade através de movimentos rotatórios, como os planetas em torno do Sol.
Essa é uma compreensão da transcendência que me toca. Mais do que os cultos sisudos, as pesadas noções de pecado, Deus é visto como a leveza, a beleza. E a arte é sempre um modo de transcender, colocando nossa fração divina em contato com a grande luz.
Rumi foi sufi e poeta, nascido no século XIII. Seu nome era Maulana Jalaladim Maomé, mas ficou conhecido como Rumi de Bactro ou simplesmente Rumi.
No seu tempo, o amor devotado a Deus era embalado em versos que pareciam dedicados aos amantes ou aos enamorados. Mas eram poemas feitos para o sagrado, que se apresentavam em linguagem cifrada num período obscuro, num tempo em que o fanatismo exigia, e ainda exige, severidade para tratar das coisas de Deus.
Mas alguns devotos acreditavam num Deus amoroso, não punitivo, e expressavam seu amor sem as amarras da censura e escreviam como se tratassem das coisas da Terra quando, na verdade, a elevação aos céus permeava suas palavras. Seus versos eram como uma fonte oculta na floresta.
Os poemas de Rumi são fragmentos místicos que se encaixam formando uma grande obra. Ao mesmo tempo em que têm uma interdependência, possuem uma liberdade de sentido que se mantém mesmo quando os lemos separadamente. Essa articulação me impressiona e encanta. Deixo aqui alguns versos de Rumi e a sabedoria que está nas suas linhas e entrelinhas.
“Vem, te direi em segredo
aonde leva esta dança
Vê como as partículas do ar
E os grãos da areia do deserto
Giram desnorteados
Cada átomo
Feliz ou miserável
Gira apaixonado
Em torno do Sol
Ninguém fala para si mesmo em voz alta
Já que todos somos um
Falemos de outro modo
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo passo a passo
Vem, se te interessas, posso mostrar-te
Na verdade, somos uma só alma, tu e eu,
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti,
Eis aqui o sentido profundo da minha relação contigo
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu...”
(Tradução: José Jorge de Carvalho)


