A virilidade em copota
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de março de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Após 27 anos, o romance Pilatos de Carlos Heitor Cony é relançado. Ambientado durante a ditadura militar, narra a história de um pênis preservado em formol
Quando foi publicado em 1974, o romance Pilatos provocou um certo estranhamento. O personagem principal da obra, chamado Herodes, era uma figura inusitada: o membro sexual masculino. Aquilo que a ciência chama de pênis. O detalhe era que o personagem não vivia em seu lugar adequado, como parte integrante do corpo de um homem. Vivia num vidro de compota de pêssego nadando numa mistura de álcool e iodo.
De autoria do escritor e jornalista carioca Carlos Heitor Cony, o livro na época não alcançou nenhum sucesso comparado às outras obras do autor. O pano de fundo do romance retratava um momento crítico da história do Brasil, a violência da ditadura militar. Com sutileza, descrevia a existência das forças de repressão em sua tarefa de perseguir, torturar e assassinar pessoas contrárias ao regime.
Vinte e sete anos depois, a editora Companhia das Letras está relançando Pilatos. Com o devido distanciamento da época retratada, o romance poderá será lido com outro enfoque agora. O maior interesse sobrecairá, ao que tudo indica, em seus ingredientes cômicos. O romance é uma comédia trágica onde Cony revela seu lado mais humorado.
Pilatos é narrado pelo dono de Herodes, um cidadão brasileiro comum. Isso até o dia em que, ao atravessar uma avenida, é atropelado por um ônibus. Ao acordar num leito de hospital, percebe a falta de alguma coisa em seu corpo. Para seu espanto, vê o próprio pênis dentro de um vidro sobre uma mesinha ao lado da cama. Fica sabendo que, com o impacto do acidente, teve o órgão sexual decepado. Em seu lugar os médicos colocaram uma torneirinha para as necessidades fisiológicas.Para superar o drama, faz o juramento de nunca separar-se de Herodes.
Após sair do hospital, passa a vagar pelas ruas do Rio de Janeiro, sem passado e sem futuro, com pênis debaixo do braço em sua nova moradia, um vidro de compota: Herodes, agora era mais do que uma relíquia ou um amuleto. Era também um fato histórico. Daí por diante, ele e eu inaugurávamos um ciclo. Era mais meu, agora, do que antes. Dependia de mim, e eu o trataria como um pássaro ferido um pássaro ferido e importante, um pássaro do qual foram arrancados os olhos e as asas mas que se obstinava em viver e ser meu.
Sem casa e sem dinheiro, logo percebe que Herodes pode se transformar em seu ganha pão. O órgão decepado faz sucesso entre as senhoras pudicas e consegue até uma ponta num filme de vanguarda. Dormindo em bancos de praças, fica amigo de um sujeito chamado Dos Passos, um tarado inveterado que mistura política com sêmen.
Em suas vadiagens, o narrador é preso confundido com um subversivo. Moído de pancada, fica esquecido numa cela onde sua maior preocupação é proteger Herodes já que há quem ache que trata-se de uma exótica linguiça em conserva esperando para ser devorada.
Carlos Heitor Cony desenha o narrador como um personagem passivo com relação ao seu destino. Aceita de modo simples o mundo à sua volta, bem como sua condição de mutilado, de miserável. Completamente alheio ao momento político em que está inserido, é arrastado violentamente por ele até perceber que alguma coisa está ocorrendo. Uma percepção que só acontece quando perde tudo, inclusive Herodes em seu aquário de álcool e iodo. Nesse momento atinge o emblema da condição humana: Solitário e mutilado, minha salvação deveria começar pela consciência de que nada era e de que nada me era devido. Precisava me agarrar à vida. Morto, de nada eu me adiantava.
Mesmo sendo divertido, Pilatos é um romance que trabalha com vários elementos simbólicos. Seu real conteúdo permanece nas entrelinhas de maneira sutil. Um homem que aceita complacentemente seu destino e outro que se revolta com unhas e dentes contra seu próprio destino estão em pé de igualdade. Ambos partem do princípio que a vida deve ser resguardada e ao mesmo tempo consumida.
Pilatos - De Carlos Heitor Cony, Editora Companhia das Letras (telefone: 11 3846-0801 / internet: www.companhiadasletras.com.br), 224 páginas, R$ 24,00.


