A violência sobe ao palco
Sangue, violência e morte. Estes três elementos estarão presentes em abundância na peça D.C.V.X.V.I. - Eis o Filho da Luz, escrita e dirigida por Paulo Biscaia, que faz parte da mostra oficial do 8º Festival de Teatro de Curitiba. A montagem poderá ser vista hoje e amanhã, no Galpão. O diretor, que gosta de trabalhar com temas do gênero, avisa que esta é uma das montagens mais sangrentas de sua lavra.
O filho da luz não é ficção. Ele existiu realmente, chamava-se Febrônio Índio do Brasil, matou um número impreciso de pessoas - todos homens - e apodreceu na cadeia, em São Paulo. Passou 50 anos no manicômio judiciário; morreu em 1984, aos 90 anos de idade. Na peça será vivido por Clóvis Inocêncio (que até bem pouco tempo se assinava Inoce).
Paulo Biscaia considera o personagem um ser amoral e insatisfeito. Sem julgamentos. Ele tinha a mesma insatisfação dos artistas, e como acreditava ser um enviado especial, com missão a cumprir na terra, fundou uma religião. O peso missionário ocupa muito do espaço do espetáculo, porque também o artista carrega algo parecido.
Daí os caminhos paralelos que o diretor traça entre o assassino e o criador, como pontos conflitantes. Enquanto um traz à vida sua criação, outro almeja o fim, a morte. Ambos, porém, estão em perfeita sintonia: buscam aquilo que jamais atingem, estão sempre olhando para o além.
Brinco dizendo que para mim o assassinato é a oitava arte. É a forma mais radical e mais espontânea. O teatro tem estreita semelhança com o ritual de morte, assim como um serial killer, acredita Biscaia. O casamento é perfeito, decreta.
Febrônio, filho de um açougueiro, costumava se fazer passar por dentista ou médico, na década de 20. Era um sedutor nato, e conseguia atrair incautos pela leveza de sua lábia - convencia os jovens a se juntar à sua seita. Foi assim que degolou e estripou dezenas deles, um número que jamais será conhecido. Apesar disso, foi preso por somente duas mortes.
Antes da condenação perpétua foi detido 29 vezes por roubos. Numa dessas vezes estava na cadeia quando brigou com um detento: esfaqueou-o e, para fechar o corte aberto na barriga da vítima, arrancou o dedo de outro com um alicate. Visão do inferno? Esta é a primeira cena da peça, avisa o diretor.
D.C.V.X.V.I. era um código, uma mensagem que o assassino imprimia nos corpos. Decifrados, eles representariam o número 666 que é a marca da besta. Também um livro foi escrito por Febrônio, As Revelações do Príncipe do Fogo, queimado na época pelas autoridades policiais. Porém, um exemplar foi resgatado por um professor da USP, Carlos Augusto Calil, que em breve lançará O Livro de Febrônio. Parte desse material chegou às mãos de Paulo Biscaia.
Se pudesse modificar o título do espetáculo, o autor o substituiria por Um Pesadelo Biográfico não Autorizado de Febrônio Índio do Brasil. Porque a vida do bandido era feita de dor e trevas. No Festival de Teatro do ano passado, o diretor apresentou Peep que causou enjôo nas pessoas, segundo ele. Sobre esta nova montagem Biscaia define como sendo triste, muito triste.
O cenário da peça é cru: apenas um telão fazendo pano de fundo para os atores, onde serão projetadas imagens como se fossem a visão do alienista, andando pelas ruas e carregando no peito seu próprio inferno. O vídeo, em plano sequência (sem cortes) foi realizado numa madrugada, em Curitiba, saindo da Praça Santos Andrade, e indo terminar na Praça Osório. Entre um ponto e outro, tem-se a extensão do calçadão da Rua Quinze. Ele dura 1h05, o tempo exato da peça.
As mortes não param neste espetáculo. Paulo Biscaia quer estrear no segundo semestre a peça helterskelterbabymacbeth. O título inclui um dos sucessos dos Beatles, que teria sido a mola propulsora para Charles Manson fundar sua religião de cores nazistas e um ódio incontrolável contra os negros. Manson matou a atriz Sharon Tate em sua casa, junto de outras pessoas. A belíssima jovem, grávida de oito meses, comoveu o mundo com sua morte.
- D.C.V.X.V.I. - Eis o Filho da Luz de Paulo Biscaia. Hoje, às 21h30, no Galpão.DivulgaçãoD.C.V.X.V.I. - Eis o Filho da Luz: serial killer que inspirou personagem realmente existiuZeca Corrêa Leite





