E se o lobo mau da Chapeuzinho Vermelho não quisesse devorar a vovozinha e a criança não atirasse o pau no gato, esses clássicos que sempre estiveram presentes na educação infantil e nas brincadeiras continuariam os mesmos? No intuito de educar crianças de uma forma ''politicamente correta'', escolas e educadores têm apresentado histórias modificadas para afastar os alunos de temas violentos e promover a conscientização.
''Atirei o pau no gato'' virou ''Não atire o pau no gato'', o Saci Pererê ficou sem o cachimbo e Lobo Mau, em vez de ser morto pelo caçador, foge pela floresta.
Observando essa tendência, o escritor, contador de histórias e pesquisador Ilan Brenmam estudou o tema em sua pesquisa de doutorado pela USP. Autor de livros infantis que buscam ''tratar a vida como ela é'', como ''Até as Princesas Soltam Pum'', Brenmam questiona a mudança de histórias e músicas na tentativa de reduzir a violência na vida real.
''É uma visão organizacionista'', diz, citando o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), para quem o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. ''A criança é um ser complexo e ela não é contemplada quando uma história clássica é mudada.''
Brenman avalia ainda que as crianças anseiam por enredos verdadeiros e lembra que, quando são elas que escolhem as histórias, as de terror lideram os pedidos. ''Será que elas são psicopatas ou querem o terror para lidar com questões subjetivas, como o terror interno?''
Entre os pais, a questão divide opiniões. ''Tenho a impressão de que eles ficam meio perdidos. Escutam o que a mídia fala e o que a escola fala, mas não sabem ao certo o que fazer'', diz Brenman, que, em suas palestras, costuma perguntar a professores se eles matavam formigas ou queimavam bichinhos quando eram pequenos. ''Hoje, se uma criança mata uma formiga, vai para o psicólogo'', critica.
Mãe de um menino de 3 anos, a fisioterapeuta Carla Oseliero Trevizoli, de 37, acha a estratégia das escolas exagerada. ''Os desenhos me preocupam mais, me parecem mais violentos.'' Já a terapeuta ocupacional Débora Gleides Craveiro Crajonas, de 47 anos, mãe de duas meninas e um menino, procura opções mais suaves. ''Há tanta violência no mundo que eu acho melhor não reforçá-la.''
A contadora de histórias Kiara Terra, de 31 anos, questiona a ideia de que a criança tem de ficar em um mundo excessivamente protegido e higienizado. ''Como qualquer ser humano, as crianças estão em contato com a realidade, com conflitos e cheias de perguntas difíceis.''

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