Todo crime violento traz em seu interior uma história oculta. Uma história capaz de revelar não apenas a causa do crime, mas suas implicações sociais e psicológicas. Quando o preconceito se coloca como muro para a justiça, a vítima pode ser considerada culpada e o criminoso um homem de bem. Essa trama de inversão de valores ganha maior evidência quando é utilizada pelo imprensa com suas normas imediatistas.
Em seu livro de estréia, ''Dias de Ira'', o jornalista Roldão Arruda visita a história oculta de uma série de assassinatos de homossexuais ocorridos na cidade de São Paulo entre 1986 e 1987. E mostra como esses casos integram a lista de ''crimes socialmente cometidos'' e a participação da imprensa nesse processo.
Uma série de semelhanças entre os assassinatos levaram a polícia e a imprensa da época a acreditarem tratar-se de obra de um ''serial killer''. Todas as vítimas eram homossexuais. Todas foram mortas de maneira semelhante, em suas próprias residências.
Após uma longa investigação, um suspeito foi preso. Um michê que prestava serviços sexuais a homens de meia idade. Pela semelhança dos crimes, a polícia atribuiu ao rapaz 13 assassinatos. Posteriormente, por falta de provas foi condenado por apenas um deles.
''Dias de Ira'' é uma grande reportagem, daquelas que não encontram espaço nas jornais dos dias de hoje. Trata-se de uma obra bem escrita que abriga uma série de abordagens. Pode ser lida como literatura que trafega entre o suspense e o policial. Pode ser lida como uma panorama do mundo gay das décadas de 80 e 90. Pode ser lida como uma bandeira pelos direitos humanos e um crítica ao preconceito da sociedade aos homossexuais.
Embora Roldão Arruda centre sua atenção nos crimes corridos em São Paulo, menciona outros assassinatos semelhantes ocorridos em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Também apresenta um incidente acontecido em Londrina em 1995: a história de um homossexual que quase foi assassinado por um michê de modo parecido com outras tragédias ocorridas. Uma tentativa de assassinato que não foi solucionada pela polícia devido ao preconceito.
A tese final de ''Dias de Ira'' é de que crimes contra minorias, sexuais ou não, seguem um padrão aceito pela sociedade como um todo. Como se a violência contra elas fossem aceitáveis e até mesmo justificáveis. E até mesmo a imprensa, que deveria desempenhar o papel de alertar, compactua com essa situação.

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