A violência como espetáculo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de setembro de 2002
Luiz Zanin Oricchio<br> Agência Estado 
Goste-se ou não de ''Cidade de Deus'' , este é o filme inevitável. O filme brasileiro do ano. Transformou-se em evento e impôs-se como aquele tipo de obra que ''todo mundo'' comenta. Quem não viu corre o risco de ficar por fora das conversas. O filme entre em cartaz, a partir de hoje, em várias salas do Paraná.
O longa-metragem é baseado no livro homônimo de Paulo Lins, alguém que conheceu por dentro o assunto de que trata. Lins morou lá muitos anos e hoje vive no mais ameno bairro de Santa Tereza. É um romance, mas baseado em fatos e personagens reais. Acompanha o desenvolvimento da criminalidade em Cidade de Deus o conjunto habitacional erguido na zona oeste carioca dos ''românticos'' anos 60 até a implantação das bocas-de-fumo e finalmente o estabelecimento do mais rentável tráfico de cocaína. O nome do conjunto é uma ironia cruel pois, como diz o narrador, trata-se de um lugar abandonado por Deus e pelos homens. Cidade de Deus é descrita como uma ilha, quase uma mônada, de escasso intercâmbio com o mundo de fora.
O romance tem sido acusado de falta de contextualização e o filme dele tirado não fica atrás. Como se aquele microcosmo tivesse brotado de si mesmo, fosse o seu próprio ovo de serpente e não dependesse, da origem ao crescimento desordenado, de algo que lhe é infinitamente mais amplo e mais poderoso a estrutura da sociedade como um todo.
No entanto, não se pode negar a qualidade do longa-metragem de Fernando Meirelles, co-dirigido por Kátia Lund. A filmagem, a fluência, o trabalho de atores, a agilidade da montagem e a qualidade da música tudo somado resulta num filme muito prazeroso. É perceptível a influência do cineasta americano Quentin Tarantino sobre o estilo do realizador.
A história começa de um ponto, avança, e só se esclarece quando retorna ao início. Esse processo pode se repetir várias vezes ao longo do filme. Em ''Cidade de Deus'' há um grande círculo que se fecha no fim. A cena da festa e da fuga da galinha, que abre o filme, retorna no final, depois vem uma pequena coda e enfim sobem os créditos. Mas o formato de círculo repete-se em escala menor também no decorrer da história, às vezes sob o aspecto de pequenas digressões. Para explicar por que o marginal-mór Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora) está tomando uma boca-de-fumo a um inimigo, refaz-se toda a história do lugar, as pessoas que o controlaram e como perderam o domínio do posto. As cenas se sucedem de maneira rápida, de modo que as digressões não se tornam dispersivas.
Como acontece em ''Pulp Fiction'', também em ''Cidade de Deus'' se trabalha com uma certa espetacularização da violência. Esse traço, evidente em Tarantino, faz parte da tradição cinematográfica americana, tendo atingido seu ápice com Sam Peckinpah. Mas deve-se lembrar também do western-spaghetti e da violência mais crua, mas nem por isso menos estilizada, de mestres como Coppola e Scorsese.
Parece que o traço geral dessa atitude é a busca do que há de belo na destruição, na guerra, na morte, anulando, pela espetacularização, isto é, por sua transformação em show, tudo aquilo que essas situações tenham de insuportável. Aqui jamais se poderá falar em espetacularização, pois o diretor leva em conta a dor, o mistério e a duração do ato de morrer. Quando morre o taxista, e depois o criminoso, morremos um pouco com eles.
Há uma evidente questão ética envolvida nessas diferentes maneiras de representar a morte. Pode-se representá-la como brincadeira e, no extremo oposto, pode-se adotar uma atitude reflexiva que contemple na íntegra a gravidade da destruição de uma vida humana. Entre esses dois pólos contrários há toda uma gama de variantes na maneira como é posta na tela. Não há, a rigor, nenhuma possibilidade de neutralidade ideológica na maneira como a violência, a morte e a destruição são representados. Nada é gratuito, e, em uma obra de arte, tudo faz sentido e é responsabilidade do realizador.
Em ''Cidade de Deus'' predomina a forma da violência espetacularizada quer dizer, neutralizada. O morticínio, que vai se tornando progressivamente feroz à medida em que a história avança, termina por anestesiar o espectador, que não sofre ou não se choca mais com o que vê na tela. Aliás, a maneira como tudo é mostrado visa, explicitamente,a atenuar o sofrimento ou a consciência dos fatos.
Há exceções, a bem da verdade, sendo a mais notável delas a cena em que uma criança é assassinada num chiqueirinho. Zé Pequeno, o dono do tráfico quer dar uma lição na molecada que rouba na favela e portanto atrapalha o movimento. Obriga um garoto a escolher entre duas crianças e sacrificá-la. Tudo, nessa cena, é forte. Da interpretação dos atores, densamente naturalística, ao tempo de duração, lento, cruel, e reflexivo se o termo cabe. São minutos em que o público permanece em absoluto silêncio, procurando assimilar o que não pode ser assimilado a ação brutal de alguém que tira a vida de outro, sendo que esse outro é uma criança de seis ou sete anos. Outra cena forte é quando o marginal Cabeleira (Jonathan Haagensen) é alvejado pela polícia no momento em que procurava escapar em companhia da namorada, enquanto se ouve ao fundo o lirismo de uma música de Cartola. O contraste entre a crueza da cena e a doçura do samba produz uma dissonância interessante. Há também o assassinato de Bené (Phellipe Haagensen), o bom malandro, em seu próprio baile de despedida. Nesse momento, a força da ligação entre Zé Pequeno e Bené, amigos de infância, aparece em toda riqueza e por instantes o filme torna-se o que poderia ter sido - uma tragédia social. Mas logo se recupera. Essas sequências são exceções, pois o tom buscado é outro.
Há, em seguida, um certo naturalismo bem-humorado que tende a criar simpatia pelos personagens, mesmo que ostensivamente cruéis, como é o caso de Zé Pequeno. Os diálogos pesam muito nessas composições de personagens. . Em ''Cidade de Deus'' os diálogos sçao muito espontâneos, vívidos, cheios de gíria e malícia da bandidagem.
O trabalho com a fotografia e com a câmera também são dignos de atenção. O diálogo com a imagem publicitária e com o clipe são evidentes. A câmera mexe-se o tempo todo, o trabalho fotográfico busca o inusitado, a imagem é inquietante e estimulante. Visualmente, o filme prende bastante a atenção. Seu ritmo de montagem raramente deixa algum tempo para o recolhimento da platéia. E Meirelles potencializa seus efeitos de sedução com uma trilha sonora envolvente, que vai de Cartola a Tim Maia e seu Jorge (que também interpreta um papel, o do vingador Zé Galinha). Sentimo-nos, diante deste filme, como um espectador de classe média diante da energia pulsante de um baile punk um pouco assustado, mas seduzido pelo que vê. Sem nenhuma maldade: lembra um pouco a prática da juventude dourada carioca de frequentar lugares barra-pesada da zona norte para sentir um pouco de emoção. Enfim, as inegáveis qualidades de ''Cidade de Deus'' não bastam para convencer inteiramente. Falta-lhe talvez a grandeza ética de ligar a violência que retrata à História e ao ambiente social de onde ela nasce. Mas para fazer isso seria preciso contextualizar, pensar politicamente. Produzir um efeito de distanciamento que, quando expõe a ação, também a critica e disseca.
Essa restrição, deve-se admitir, baseia-se em outros parâmetros éticos e estéticos. Estes, por sua vez, se fundam num certo cânone informal do cinema brasileiro, estabelecido nos anos 60, e que agora se encontra em via de dissolução. Nesse sentido, não há dúvida que ''Cidade de Deus'' é o filme brasileiro que articula por completo a linguagem contemporânea do cinema e da sociedade com todas as implicações decorrentes dessa adesão incondicional às contingências do presente. É um filmaço, problemático.
Serviço:
A Folha de Londrina vai sortear 40 ingressos para o filme ''Cidade de Deus''. Para participar da promoção, os leitores terão que responder à seguinte pergunta: ''Qual o jornal que leva você para assistir ao filme Cidade de Deus?'. Os participantes devem enviar a resposta para a Folha através do e-mail [email protected] ou para o endereço da empresa, na Rua Piauí, 241 CEP: 86010-909 Londrina-PR A/C Departamento de Marketing. O leitor deve anexar nome completo, endereço e telefone. Serão consideradas as respostas (por e-mail ou carta) que chegarem até o dia 16 de setembro, segunda-feira. A lista dos ganhadores será publicada na Folha2 no dia 17. Os ingressos são válidos de segunda a quinta-feira, exceto feriados, em todos os cinemas onde o filme estiver em exibição.


