A vilã da história
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de março de 1998
Ana Cristina Ioselli TV Press 
Arquivo Folha/Carta Z NotíciasCássia Kiss: É infinitamente mais sedutor
viver o vilãoComo boa estrategista, Cássia Kiss não vê a hora de começar a guerra. O campo de batalha são os sets de gravação de Por Amor. A vítima número um: Suzana Viera, que interpreta a vilã Branca. A arma: Carlos Eduardo Dolabella, que vive Arnaldo, marido de Branca e amante de Isabel, personagem de Cássia. Fico só pensando: vou chupar os ossinhos da Suzana Vieira, maquina Cássia, enquanto destila veneno e assume ares de Isabel.
Cássia não esconde o que pensa. Não está lá muito satisfeita com o andamento de sua personagem na novela de Manoel Carlos. Extremamente crítica, acha que ainda não marcou gol com Isabel. Mas sabe esperar.
Aos 40 anos de idade e 21 de carreira, Cássia não tem medo de dizer que até hoje não sabe se está na profissão certa. História e Geografia são duas matérias que a atraem e estão na lista de espera dos novos investimentos intelectuais. Seguidora de uma dieta macrobiótica há 20 anos, acredita que tem chances de viver muito. Por isso, não tem pressa.
No momento, o que mais a diverte é a convivência com os filhos, Maria Cândida, de um ano, e Joaquim, de dois anos e meio. Brincar com eles equivale a quatro aulas diárias de alongamento, brinca Cássia, que exibe uma esbelta silhueta no vídeo.
Casada com um publicitário mineiro, a atriz se divide entre Rio e Belo Horizonte, onde tem uma casa na cidade e uma fazenda próxima. Apesar do trabalho dobrado, faz questão de manter os filhos por perto. Ainda que tenha de viajar com dezenas de malas. Antes, ficava nervosa. Agora relaxei, diz.
Aparentemente tranquila, Cássia confessa que, na verdade, é bastante ansiosa e só consegue manter a serenidade com muita meditação. Ao contrário de sua personagem na tevê, Cássia se diz uma pessoa bondosa. Tenho inveja de mim mesma, afirma, sem modéstia.
Viver a mazinha da história é mesmo tão sedutor quanto a maioria dos atores proclama?
Cássia Kiss - É muito mais fácil ser mau do que bom. Se fosse fácil ser bom, o planeta estaria salvo. O mundo está numa fase de desintegração quase total porque a gente é ruim mesmo. O nosso lado ruim é que está dominando tudo. Por isso, é infinitamente mais sedutor viver o vilão. Com a vilã, é possível fazer caras e bocas, muito mais que com a boazinha. Tem-se muito mais instrumentos para trabalhar.
Pelo desenrolar da história, a Isabel promete um grande embate com a Branca a qualquer momento...
Cássia Kiss - Não vejo a hora. Fico só pensando: vou chupar os ossinhos da Suzana (Vieira). É uma delícia pensar assim. Porque a Suzana tem estofo. Mas eu também tenho. Sabe briga de galo? Estou esquentando, ela é que não sabe. Estou com as minhas turbinas a 2 mil por hora.
Você está apostando nesse confronto?
Cássia Kiss - A briga vai ser boa, isso eu garanto.
Tem alguma vilã de cinema que a inspire?
Cássia Kiss - Gosto muito da Bette Davis, uma mulher que foi única na carreira como vilã. E conseguiu ser cada vez mais perversa, adquiriu uma máscara muito natural. Mesmo se não tivesse a ver com os personagens, ela deve ter adquirido muito da personalidade dos papéis que interpretou.
Você acredita mesmo nessa simbiose profunda entre personagem e ator?
Cássia Kiss - Tem uma frase do Caetano Veloso que eu adoro: De perto ninguém é normal. Eu não sou normal. Os atores são muito estranhos. Acho que a gente tem uma confusão de personalidades. Sempre pega alguma coisa do personagem. Mas depende muito do exercício de cada ator. Faço um exercício de meditação para tirar todo o pensamento e deixar um vazio na cabeça para novas informações entrarem. O que nos resta é ter sensibilidade para ficar com coisas legais dos personagens e o que não presta jogar fora. É uma salada, é estranho. Acho que sou um bicho estranho, anormal.
Como é trabalhar em Por Amor?
Cássia Kiss - A Isabel é um personagem dificílimo de fazer. Estou em uma novela relativamente cruel porque o número de personagens é muito grande. Se é cruel para mim, imagina para o autor, que escreve para essas 80 pessoas. Há meia dúzia de privilegiados dentro da novela e eu não sou a privilegiada. Gosto de fazer, mas não acho que estou muito bem na novela.
Por quê?
Cássia Kiss - Acho até que acerto, mas há cenas em que o parafuso está mais apertado. Tem certas cenas em que você precisa mais do outro e você não tem. Mas ainda não marquei gol. Aliás, marquei só um gol.
Quando foi?
Cássia Kiss - Foi em uma cena com o Atílio, personagem do Antônio Fagundes, no capítulo 15 ou 20. Era uma cena de briga em que a Isabel vai implorar pelo amor dele. Ali deu para marcar um golzinho. Mas é muito difícil. É o tipo de personagem que não é um bicho que você pega, domina e conhece na intimidade. Então, toda vez parece que estou entrando no galinheiro e tenho de pegar a galinha. Isso cansa. Dá muita insegurança e isso faz com que eu não realize o trabalho da forma como gostaria.
Quando você pegou o bicho?
Cássia Kiss - Com a Maria Marruá, de Pantanal, peguei o bicho de uma tal forma que dormia e acordava como o personagem. Ela não saía de mim. Eu andava com a roupa dela o dia inteiro, andava descalça. Estava mordida pelo bicho.
Consta que, durante as gravações de Pantanal, o próprio diretor Jaime Monjardim, às vezes, sumia e tempos depois era encontrado dentro do rio, na maior tranquilidade. O Pantanal é mesmo assim tão mágico?
Cássia Kiss - Foi o lugar onde gravei cenas que me fizeram tomar algumas decisões. A principal delas foi querer ter filho. Antes, não queria.
O que a fez mudar?
Cássia Kiss - A gente gravou uma cena em que a Maria Marruá paria numa canoa em pleno Rio Negro. Foi uma cena belíssima. Tenho muita satisfação de lembrar daquilo. Gravamos a cena e depois chorei por uns 50 minutos. Eu me abracei ao diretor Roberto Naar e dizia para ele: preciso ter um filho. Entrei nessa obstinação. E tive de achar um homem para me dar um filho. E isso foi o mais difícil.
A opção de não ter filhos tinha algo a ver com a profissão?
Cássia Kiss - Achava que não dava para coisa. Já tinha até feito aborto. Hoje, mais do que nunca, sei que existem mulheres que não nasceram para ter filho. Felizmente, eu descobri o contrário. Agora tenho a Maria Cândida, de um ano, e o Joaquim, de dois anos e meio.
As crianças ajudaram a mudar sua visão do trabalho?
Cássia Kiss - Eles são a razão de viver que nunca tive. O trabalho nunca foi o principal. Sobrevivo muito bem sem ele. Primeiro porque, apesar de 21 anos de trabalho, ainda me questiono se estou na profissão certa. Acho que se eu me enfiasse em qualquer lugar iria me dar bem. É a minha natureza. Atuar não é uma coisa que faço com os pés nas costas. Gostaria de ser assim. Tenho de tirar leite de pedra. Sofro mais do que gozo.
Atualmente você também está sofrendo com a Isabel?
Cássia Kiss - Ela está me dando muita dor de cabeça. Tenho de pensar muito. Se bem que agora estou mais relaxada, estou me inspirando mais no Murilo Benício, no que ele faz. Estou deixando para estudar na hora. Não estudo mais em casa. Senão, preparo demais para uma coisa que às vezes não acontece. Assim, não espero nada. O que pintar é lucro. Chego, leio, decoro, ensaio e taco pau na concentração. Não sofro tanto. Quando elaboro muito, faço um bolo requintado na minha imaginação, mas chego no estúdio e como um bolo de padaria. Não dá.
Você sempre diz o que pensa. Esta sinceridade já trouxe problemas?
Cássia Kiss - Só me traz problemas. As pessoas dizem que gostam da sinceridade, mas é só discurso. Se você, numa conversa séria, disser a uma pessoa o que pensa dela de verdade e ela disser o que pensa de você, dói pra caramba. É um exercício complicado. Dentro de casa sou muito sincera e lá o bicho já pega.
Você vai sair mesmo da Globo depois dessa novela?
Cássia Kiss - Tenho convite de outra emissora para trabalhar que me apraz muito. Recebi um telefonema da Ana Maria Moretzsohn, da Band. Mas ainda não sei. Eu e a Globo decidimos não renovar meu contrato. Mas gosto de trabalhar na Globo, vou esperar para ver se pinta algo sedutor para eu fazer. Também tenho boas propostas para fazer cinema. E tenho um projeto teatral importantíssimo para o segundo semestre sobre o poeta Manoel de Barros, mas que ainda não posso falar o que é.


