A vida sob a lona
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de agosto de 1998
Jackeline Seglin 
A vida no circo parece não ser fácil. E, pelo jeito, não é mesmo. Mas torna-se um vício para aqueles que pisam no picadeiro. E cada uma das pessoas que moram sob a lona tem uma história para contar. A vivência, as funções no circo, as regras. Cada um deles é apaixonado pelo que faz. No Circo Nazionale DItália Orlando Orfei, que está em temporada em Londrina, alguns artistas são especializados em uma única função, enquanto outros se desdobram no picadeiro e nos bastidores. Como o domador alemão Jorge Marzer, que trabalha com pôneis, cavalos, cachorros e com uma das principais atrações, o urso polar. Fora do picadeiro, ele vira treinador, veterinário, cuida da alimentação dos animais e da aparência deles.
Dorico da SilvaO domador de ursos Jorge Marzer: fui dar um beijo na fera e ela quase me arrancou a bocaNaturalizado brasileiro, Jorge entrou para a grande família Orfei aos 18 anos. E de lá não saiu mais. A serragem entra no sangue da gente, garante. Aos 34 anos, Jorge é casado com a domadora de leões Irma Guranyi.
O temido urso polar, na verdade uma fêmea de 250 quilos, chamada Eskimó, é a companheira de Jorge no picadeiro. A fera é a estrela. Ela caminha sobre bolas, sobre duas patas e escorrega em um tobogam. O domador frisa que o animal tem garras afiadas, presas e não usa focinheira. É melhor não bobear com a fera. Se ela tropeça em alguma coisa no chão e perde o equilíbrio, pode cair em cima de mim. Se tiver com algum problema, como uma dor de barriga, ela fica mais perigosa.
Dorico da SilvaA pequena notável Estefânia Soledad: encantando o público com o seu número de contorcionismoNo cativeiro, o animal se refresca em uma piscina externa e, dentro da jaula, tem outro tanque, além de sol e sombra. Jorge diz que a ursa tem uma alimentação balanceada, à base de ração de cachorro, frutas e verduras. A ursa não come carne. Não que ela não goste! Não dou carne porque o bicho fica bravo sem necessidade, explica Jorge. Ele observa, ainda, que o animal adora mel, pão e bolacha.
O domador conta que o urso polar é um dos animais mais perigosos, já que se move tanto em terra como na água. Ele não tem inimigo natural. Só morre por alguma doença. Jorge lembra que uma vez tentou dar um beijo no bicho. Ela quase arrancou minha boca!
Exercendo uma função pouco comum nos circos, o russo Maxat Annaev, de 21 anos, apresenta um número diferente no Orlando Orfei. Ele é amestrador de gatos. Faz os bichanos darem pulos, saltarem de um mastro da altura do circo, enfim, fazer truques acrobáticos. Mas, como é domar um gato? A gente não doma gatos, eles não deixam, são muito independentes. Na verdade, enquanto eu entro no picadeiro para trabalhar, eles vão para brincar, explica. O que existe é um segredo para convencer os animais a fazer seu número para a platéia. Claro que o truque ele não conta. Maxat trabalha com gatos há um ano e meio e está no Orlando Orfei desde abril. Ele conta que nasceu num circo, na Rússia. O jovem domador entrou sozinho para a família Orfei, já que os pais continuam na Europa.
Apesar de brincar o tempo todo com os gatos, o trabalho nem sempre é agradável. Maxat tem os braços todos arranhados (até com cicatrizes) por causa das unhadas dos bichinhos.
O domador de gatos Maxat Annaev: segredo para treinar os bichanos e muitos arranhõesTambém atração do circo italiano, a argentina Estefânia Soledad é uma das estrelas do picadeiro. Com apenas nove anos, a pequena encanta a platéia com seu número de contorcionismo. Filha de pais equilibristas, ela nasceu no circo e aos quatro anos começou a ensaiar. Minha avó queria que eu fosse contorcionista e eu gostei da idéia.
Estudante da 6ª série, a contorcionista diz que gostaria de continuar no circo. Mas meu pai quer que eu faça faculdade.... Aluna aplicada, Estefânia diz que se fosse escolher uma profissão gostaria de ser engenheira, veterinária ou dentista.
Depois que chega da escola (em toda cidade ela se matricula em alguma instituição), a menina faz aula de balé e jazz, ensaia (três horas por dia) e só depois pode brincar. A gente brinca de esconder, de jogar bola.... Como as outras crianças.
Uma das maiores sensações de qualquer circo, o palhaço é a alegria da garotada. Plin-Plin é o artista mais antigo do Orlando Orfei, com 25 anos de casa. A história do paulista Gilberto de Andrade, de 49 anos, começou de maneira inusitada. Na época, tinha começado a estudar teatro em São Paulo, quando conheci o pessoal do Orlando Orfei. De cara, recusei a função dizendo que não era palhaço. Uma vez, ao entrar no picadeiro, caiu de cara no chão e fez a platéia rir muito. Gostei e decidi: quero ser palhaço. Essas pessoas estão felizes e isso é o que importa. Sou um homem realizado.
Hoje ele também é assessor de imprensa e uma espécie de faz-de-tudo da companhia. Foi também no circo que Andrade conheceu sua companheira. Em apenas 15 dias noivou e casou com uma chilena, com a qual tem um filho. Estamos juntos há 15 anos. Mas a carreira circense está para se encerrar. Preciso cuidar da minha úlcera, brinca. Vou deixar o circo no ano que vem. Mas continuo a trabalhar na área de shows, conta.


