A vida segue pelos trilhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de agosto de 2013
Adriana De Cunto<br> Reportagem Local 
Curitiba - "Mãe morreu de uma fisgada só e o que restou foi um pai morto." A frase abre o primeiro romance do jornalista Nilson Monteiro e dá o tom das 202 páginas que estão por vir. "Mugido de Trem" conta de uma forma nada linear os conflitos e dramas de personagens que vivem em pequenas cidades do Brasil. O escritor lança a obra amanhã à noite no Museu Oscar Niemeyer (MON), na capital paranaense. Em Londrina, o lançamento acontece em 23 de agosto, a partir das 19 horas, na Biblioteca Pública.
O primeiro capítulo já foi apresentado aos leitores do "Cândido", jornal mensal da Biblioteca Pública do Paraná, em janeiro deste ano. A boa repercussão da história motivou Monteiro a publicar o romance. "Amigos, escritores, professores universitários e até leitores desconhecidos entraram em contato comentando, com elogios e críticas. Percebi que era o momento de soltar o livro no mundo", diz.
Monteiro já publicou outros livros. O primeiro, de poesias, foi batizado de "Simples". Depois vieram dois livros de crônicas ("Pequena casa de jornal" e "Curitiba vista por um pé vermelho"), dois de reportagem ("Itaipu, a luz" e "Ferroeste, um novo rumo para o Paraná"), um de biografia ("Madeira de Lei") e um livro de história ("Pedaços de muita vida - a história de 122 anos da Associação Comercial do Paraná"). Com o Sebrae, ele trabalhou no livro "Sebrae/PR - 40 anos ajudando a transformar vidas".
Conflitos
A primeira frase do romance, profunda e sentida, quer estimular a curiosidade do leitor. Dessa declaração já é possível perceber que o livro trata dos conflitos da alma humana e o autor avisa: "Não é uma novelinha sem consequência". Nos 57 capítulos, estão presentes as alegrias e tristezas da vida na roça, dramas familiares e a mudança nem sempre vitoriosa de quem deixou o campo para morar em uma grande cidade. No prefácio, o escritor Roberto Gomes comenta: "Há jornalismo, há história, há causos. Mas não há fantasia. Sem vestígios de enredo. Tudo é muito duro, muito pesado e denso, muito chocante, é só porrada, uma após a outra: 57 rounds".
Mesmo antes de ser lançado oficialmente, "Mugido de Trem" recebeu boas críticas de escritores, como a comparação com a narrativa do livro "O jogo da amarelinha" de Julio Cortázar. Isso porque as duas obras permitem uma leitura de maneira aleatória, pulando até os capítulos. A comparação com o escritor argentino pode ter deixado Nilson Monteiro orgulhoso, mas ele despista: "Eu não tenho essa pretensão, nunca tive".
Monteiro explica que o seu primeiro romance não é ambientado em um local específico. "É uma cidadezinha pequena, em qualquer parte do Brasil." Quanto aos personagens, eles contam muitas histórias e qualquer pessoa que teve alguma ligação com o interior do País saberá reconhecer as semelhanças. "São várias famílias, milhares de famílias, inúmeras famílias que têm esses conflitos todos, conflitos de alma", explica o autor, ressaltando principalmente o drama de quem trocou a vida rural pela sobrevivência na metrópole.
Quem já jogou bola em um campinho improvisado, depois da missa e do almoço de domingo, vai se encontrar no capítulo 21: "Ganharam as traves para inaugurar os sonhos. Descalços, os cascões dos pés pouco sentiam dos cutucões das varas curtas, das ilhas de terra no meio do mato rasteiro. Assim como as caneladas passavam despercebidas. Ou os dedões inchados de tanto bico pra cá e bico pra lá. Eram moleques fascinados pelos gols, um time de camisa e outro sem. Os calções, de algodão pobre, roto, ainda tinham letras de propagandas de políticos das cidades vizinhas".
Em outro capítulo, de número 16, a rinha de galo é retratada de maneira cruel e a disputa entre o galo do fazendeiro e o galo do trabalhador humilde revela as complexidades de uma luta de classes.
"Mugido de Trem" traz em suas passagens muito do jornalista Nilson Monteiro. "O livro deixa os personagens falarem e isso é uma coisa de jornalista. Quem fala é o personagem. Não é uma questão de comodismo, é uma questão de dar a voz para quem está na rua, para o médico, para o Papa, para o jogador de futebol", resume.
Na opinião dele, a imprensa precisa valorizar os personagens com boas histórias para contar: "Não interessa se é um astronauta, presidente da república, ator, boia-fria, tocador de viola, jogador de futebol, cientista. Esses caras que têm uma experiência humana para passar para a comunidade mantêm viva a nossa profissão".
Quando fala da profissão, Monteiro se emociona. "Jornalismo é uma cachaça, muita gente já disse isso. Mas não é só uma cachaça. É da alma. Se você é jornalista, não é copiador de internet, é jornalista para sempre", diz.
Monteiro não esconde a ansiedade pelo lançamento de "Mugido de Trem". "Não é um romance linear. É como a vida e a vida é cheia de cortes, cheia de quebra, de desce e sobe. A vida não é fácil para ninguém. Se não é fácil para o Eike Batista, que era um bilionário e agora virou milionário, pra quem vai ser fácil?", brinca.
O próximo projeto literário é o lançamento de um livro de crônicas. "Personagens" deverá reunir uma série de textos que já estão prontos e aguardam na gaveta a chance de ganhar o mundo.
Serviço:
"Mugido de Trem"
Autor - Nilson Monteiro
Editora - Banquinho Publicações Ltda.
Ilustração Fabiano Vianna
Quanto R$ 35
Lançamento em Curitiba
Quando Amanhã às 19h
Onde - Museu Oscar Niemeyer (R. Marechal Hermes, 999 Centro Cívico)
Lançamento em Londrina
Quando - 23 de agosto às 19h
Onde Biblioteca Pública Municipal (Av. Rio de Janeiro, 413)


