Marcos BorgesÁlvaro de Moya: desenhista foi responsável pela realização da primeira exposição de HQs do mundo

Na estante meticulosamente arrumada, destacava-se a coleção de revistas do ‘‘Flash Gordon’’. Álvaro de Moya costumava entrar sorrateiro no quarto e sequestrar um dos exemplares da coleção do irmão para copiar os desenhos. Depois devolvia, arrumando a revista com esmero na estante. Apesar de todo o cuidado, o irmão percebia calado os empréstimos secretos.
O garoto que copiava os desenhos do ‘‘Flash Gordon’’ desenvolveu traço próprio e se tornou uma das figuras mais importantes das histórias em quadrinhos. Tão importante que organizou a primeira exposição de HQs realizada no mundo.
No início da década de 50, Álvaro de Moya se reuniu ao desenhista Jaime Cortez e outros admiradores de quadrinhos, formando uma espécie de núcleo de criação. ‘‘Nós queríamos saber como os desenhos eram feitos nos Estados Unidos, precisávamos entrar em contato com originais de grandes desenhistas’’ - explica Moya, que esteve presente no 2º Londrina Comic Con, realizado na semana passada, no Museu de Arte de Londrina.
Para conseguir os originais, Álvaro de Moya escreveu para os desenhistas argumentando que precisava de alguns exemplares para uma exposição que estava sendo organizada em São Paulo. Alguns artistas chegaram a estranhar, pois nunca tinham ouvido falar de exposição de quadrinhos, arte bastante marginalizada na época.
‘‘Quando os originais chegaram, nós ficamos impressionados com a qualidade e a beleza do trabalho. E chegamos à conclusão que deveríamos realmente fazer uma exposição’’, lembra Moya. O diretor do Museu de Arte de São Paulo, Pietro Maria Bardi, foi procurado, mas recusou a proposta.

Nos anos 50,
exposição de
HQs foi oferecida
ao MASP,
Bardi recusou



Até que um amigo conseguiu um centro cultural ligado a intelectuais e artistas de esquerda. ‘‘Todos nós conhecíamos muita gente da imprensa e, por isso, a exposição foi muito noticiada’’, comemora Álvaro de Moya.
Nesta época, por volta de 1951, a Abril estava surgindo no Brasil. Como Álvaro de Moya imitava com perfeição o traço de Disney, não foi difícil conseguir emprego para desenhar seus personagens, tarefa que desempenhou até 1955, aproximadamente.
ImperialismoOs reflexos da exposição de 1951 foram acompanhados de muita discussão. Segundo Moya, os intelectuais de esquerda afirmavam que a exposição favorecia o imperialismo norte-americano. O desenhista contra-argumentava dizendo que estava lutando para abrir espaço para quadrinhos brasileiros nos jornais. Só que este argumento desagradava grupos de direita, que viam na proposta um nacionalismo exarcebado, considerado ‘‘coisa de comunistas’’ por tentar ‘‘expulsar’’ os americanos do mercado.
Álvaro de Moya esclarece as consequências: ‘‘Como éramos relativamente agressivos, acabamos brigando com todo mundo, esquerda, direita, jornalistas e editores. O mercado se fechou para nós mas se abriu para a geração que estava aparecendo, como o Maurício de Souza e o Ziraldo’’.
Sem perspectivas, o desenhista se viu obrigado a trabalhar em um meio que não gostava: a televisão. Como conhecia muito sobre cinema, Moya se tornou diretor da Televisão Excelsior. ‘‘Os programas eram todos ao vivo, e quando chegou o videotape eu percebi que conseguia visualizar com facilidade o que estava aparecendo na tela, as tomadas e os ângulos. Tudo isto porque eu li de tudo, assisti a todos os filmes, tinha uma folha em branco na cabeça e um grande senso crítico’’, confessa.
Mas o estrelismo do meio acabou irritando o desenhista, que conseguiu uma bolsa para estudar TV e se mandou para os Estados Unidos. Paralelamente, Moya trabalhou como correspondente de jornais brasileiros. Na Broadway, ele aproveitou para entrevistar o diretor de cinema Stanley Kubrick e o dramaturgo Arthur Miller. ‘‘Quando toquei a campainha na casa do Miller, levei um susto. Quem me atendeu foi a Marilyn Monroe, que era sua esposa’’, recorda.
Em 1966 os quadrinhos estouraram na Itália, e Álvaro Moya foi designado como chefe da delegação brasileira em vários congressos organizados, entre outros, pelo cineasta Federico Fellini. ‘‘Nesse período, a Bienal de São Paulo trouxe uma exposição internacional de quadrinhos, e pediu que nós reeditássemos a exposição de 1951. Foi nessa época que voltei a entrar em contato com os quadrinhos, pesquisando e escrevendo sobre o assunto’’, assegura.
ShazanEm 1977 Álvaro de Moya lançou ‘‘Shazam’’, livro teórico sobre a linguagem dos quadrinhos. As pesquisas também envolveram o surgimento das HQs, resultando em ‘‘História da História em Quadrinhos’’, lançado em 1986 e prefaciado por Will Eisner, um dos maiores desenhistas americanos.
O último trabalho de Moya foi lançado recentemente. ‘‘O Mundo de Disney’’ foi bancado pelos Estúdios Disney nos Estados Unidos e Brasil, e também pela Editora Abril. O trabalho consumiu oito anos de pesquisa e narra desde o surgimento de personagens como Mickey e Pato Donald até a história dos estúdios.
Ao olhar para as HQs produzidas atualmente no Brasil, Moya não poupa críticas: ‘‘Nós temos grandes desenhistas e péssimos roteiristas. O problema vem da literatura. Antes tínhamos Graciliano Ramos como referência, hoje temos Paulo Coelho. O Brasil precisa ler mais para melhorar a parte escrita de seus trabalhos’’.
Enquanto aproveita a boa fase com o lançamento de seu último livro, Álvaro de Moya permanece com um olho no futuro. Ocupando o cargo de consultor editorial da edição nacional da ‘‘Heavy Metal’’, o pesquisador promete lançar desenhistas brasileiros na página da revista, continuando a escrever e participar da história das histórias em quadrinhos.

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