A VIDA NO ESPELHO DAS PELÍCULAS
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de dezembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br>De Londrina 
Londrina tem uma história. E essa história foi filmada. Antes mesmo de a cidade ser fundada, surge o primeiro registro em película da região. Esse percurso do cinema londrinense é muito semelhante aos caminhos traçados pelo cinema brasileiro e pelo cinema mundial. Quando os irmãos Lumiére pegaram uma câmera, eles logo registraram o cotidiano de sua fábrica, de sua família. Demoraram para partir para ficção.
No Brasil não foi diferente. A primeira imagem do cinema brasileiro ocorreu em 19 de julho de 1898, quando Afonso Segreto flagrou a entrada da Baía da Guanabara a bordo do paquete francês ''Brèsil''. Em Londrina, o nascimento do cinema partiu da vontade de registrar tudo que acontecia na região em que estava instalada a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP).
Toda essa trajetória do cinema londrinense foi pesquisada e detalhada em 95 no trabalho de conclusão de curso do jornalista e produtor cultural Caio Julio Cesaro, ''Memória: Produção Cinematográfica em Londrina''. No trabalho, que em breve deve virar livro, Cesaro relaciona todos os registros em película ocorridos em Londrina e região até os anos 90. A história, na verdade, começa há 69 anos...
Era o distante ano de 32, quando um cinegrafista de 50 anos passou a registrar em um filme reversível (com cópia única) 16mm as terras e a mata que hoje conhecemos por Londrina. O cinegrafista era o japonês Hikoma Udihara, o primeiro cineasta londrinense, considerado pelo crítico de cinema Carlos Eduardo Lourenço Jorge ''o ponto de chegada e partida imagística de Londrina''.
Nascido a 8 de novembro de 1882, na província de Kochi, Udihara só chega ao Brasil em 28 de junho de 1910, no porto de Santos (SP). Por volta de 1920, dedica-se ao ramo de corretagem e colonização, fundando colônias e núcleos de imigrantes japoneses. Em 22, ingressa na CTNP, a convite do gerente geral da Companhia, sr. Arthur Thomas. Torna-se o agente exclusivo da CTNP para negociações com japoneses.
O leitor deve estar concluindo: então Udihara passou a filmar para convencer colonos japoneses de outras regiões brasileiras a vir para Londrina? Exato. A nora de Hikoma, Kasue Udihara, em entrevista ao pesquisador Cesaro, contribui decisivamente para essa conclusão, definindo Udihara como um cinegrafista que não entendia de cinema e nem de arte: ''Filmava tudo o que via. Era um curioso que gostava de fotografar e filmar''.
O cineasta prosseguiu com seus filmes e suas vendas até 69. Morreu em 72, em São Paulo, após sofrer um derrame cerebral e ficar paralítico. Em 37 anos, fez cerca de 124 filmes curtos, que, segundo Cesaro, totalizam 8 horas de filme. Todos foram documentários, sem montagem, e com impressionante equilíbro nos enquadramentos. Hoje, parte desses filmes se encontra disponível em VHS na acervo do Museu Histórico de Londrina. Outra parte está conservada na Cinemateca Brasileira em São Paulo. Em 1999, a 1 Mostra de Cinema de Londrina homenageou o pioneiro cineasta atribuindo seu nome ao troféu entregue pelo festival.
O segundo registro feito nessa ''terra roxa de paixão'', como bem versava Nilson Monteiro, ocorreu entre 34 e 35: é o filme ''Brasil: Moradores Alemães do Norte do Paraná'', dirigido pelo alemão Karl Otto Muller. A película 16mm mostra a viagem de trem de Ourinhos até Jataizinho; a Colônia Heimtal; a sede da CTNP em Londrina; além de mata virgem e plantações de café. O documentário foi realizado em preto-e-branco, com duração de 17 minutos. Há apenas uma versão em VHS do filme, realizada há alguns anos pela TV Tropical.
Após esse documentário, rodado em grande parte em Rolândia, surge o terceiro homem de cinema em Londrina - o paulista Renato Melito. Segundo Cesaro, Melito começou a filmar por intuição, vocação mesmo. Nos anos 40, ele cria na cidade a Rilton Filmes, sua empresa cinematográfica. O jornalista o considera o único profissional do cinema a atuar em Londrina e também o único a exercer o cinema de cavação: ''Ele pagava os custos dos seus filmes com o dinheiro que arrecadava do 'merchandising' inserido nos filmes'', diz Cesaro, em seu trabalho.
Em trinta anos de Londrina, Renato Melito rodou mais de cem quilômetros de filmes em 35mm. Filmou até 71, produzindo sempre registros ou documentários, entre os quais: a posse do Arcebispo D. Geraldo Fernandes em Londrina, as primeiras Exposições Agropecuárias de Londrina, ''Jubileu de Prata de Londrina''(1959), ''Londrina: A Capital Mundial do Café'' (1962), ''Londrina: Terra da Promissão'' (1969). Segundo Cesaro, não se sabe onde estão esses filmes.
Depois dos três primeiros documentaristas do norte do Paraná, surge um homem disposto a fazer ficção cinematográfica, o médico Orlando Vicentini. Seu primeiro filme é de 48, mas foi em 49 que ele comprou a sua primeira câmera, a Bolex Paillard, 16mm, de origem suíça.
A primeira ficção londrinense, possivelmente do Paraná também, foi filmada entre março e abril de 54, intitulada ''Um Dia Qualquer''. Mostra os filhos do médico em sua rotina antes de ir para escola. Em dezembro daquele ano, Vicentini produziria sua segunda incursão dramática, o curta ''O Natal de 54''. Ambos os filmes são coloridos e mudos, com cerca de 10 minutos de duração.
Apesar das condições precárias de que Vicentini dispunha, percebe-se que ele era profundo conhecedor da linguagem do cinema. Segundo Cesaro, ele assistia a muitos filmes e tinha uma boa noção de alguns elementos da estética da sétima arte. Em seus filmes, há fusões, contra-planos, bons enquadramentos, e uma razoável direção de atores (seus filhos) que lhes reservam certo tom de espontaneidade.
Em 59 é filmada a obra-prima de Vicentini e talvez o melhor filme da história do cinema londrinense, ''Londrina 1959'', uma homenagem aos 25 anos da cidade. Para a produção do filme, segundo Cesaro, Vicentini comprou uma lente cinemascope e usou filme Kodachrome colorido.
Mesmo com o bom resultado, Vicentini sempre achou ''Londrina 1959'' um filme ruim, conta o pesquisador. ''Ele ia tirando imagens do filme ao longo dos anos''. A montagem inicial tinha de 40 a 50 minutos. A versão final, entregue à TV Coroados em 1984, na ocasião do cinquentenário de Londrina, tinha 20 minutos, que foram mostrados na íntegra pela TV em rede estadual, em um especial sobre a cidade. Nesse mesmo ano de 84, a cineasta curitibana Berenice Mendes veio a Londrina e realizou um documentário em 16mm, curta-metragem, sobre a cidade, usando imagens do filme ''Londrina 1959''. As únicas cópias disponíveis desse filme estão com a família, no formato original e em VHS.
O outro grande ficcionista do cinema pé-vermelho é o médico especialista em ortopedia e traumatologia, o espanhol Vicente José Lorenzo Izquierdo, falecido no ano passado. Nascido em 24, em Madrid, veio a Londrina no fim dos anos 50. Comprou sua primeira câmera em 57, uma Keystone 16mm, à corda. Fez alguns filmes registrando a família, mas logo passou à ficção. O primeiro curta nesse estilo é ''O caso do Magrini Preto'', de 61. Depois dessa produção, adquire uma câmera Yashica 8mm, e mais tarde, outra 8mm, uma Paillard Bolex. Nessa fase 8mm, filma bastante: ''Chifres Além do Túmulo'' (61), ''O Estranho'' (61), ''O Homem Invisível'' (61) e ''Os Diabólicos'' (62), todos em formato curta-metragem, em branco e preto, e sem som.
Depois dessas primeiras experiências em Super 8, Lorenzo compra filmes Kodak com banda sonora, surgindo obras mais maduras e atrativas, como: ''Isótopos'' (68), ''A Criatura'' (68), ''Fausto'' (76), ''Infração: Estacionar na Calçada/O Cego'' (78), ''O Primeiro Carro'' (80), ''A Argentina e suas Paisagens'' (80), ''Matchu Pitchu'' (80), ''Vanderlei Vai Para Cidade'' (80) e ''Gênesis'' (83), único filme paranaense selecionado para a fase final do XI Festival Nacional de Filmes Super 8 do GRIFE, realizado na capital paulista, em 83. Outros filmes premiados de Izquierdo são ''Fausto'', que recebeu menção honrosa na 3 Mostra Nacional de Super 8, em Curitiba, em 77, e ''O Cego'', vencedor do I Concurso Nacional de Filmes Super 8 para Educação de Trânsito, em São Paulo, no ano de 78. Todos são coloridos e sonorizados.
''Isótopos'' e ''Gênesis'' foram exibidos em 99 na 1 Mostra Londrina de Cinema, agradando boa parte do público. Hoje os filmes se encontram no acervo pessoal da família. Em entrevista a Cesaro, Izquierdo avaliou que todos os filmes que fez ''foi pelo prazer de fazê-los'' e disse não creditar aos seus filmes importância cinematográfica. Questionado sobre o gênero dos filmes que rodou, disse que não fez nada sério, ''porque o fator comicidade sempre esteve presente em meus trabalhos. Nunca fizemos nada dramático''.
Após esse ciclo de pioneiros, surgem alguns cineastas itinerantes. Raul Zanketti, catarinense de Joaçaba, foi um desses. Com equipanmento super 8 e 16mm, ele realizou diversos trabalhos para emissoras de TV em Londrina, mas nunca se fixou em nenhuma. Filmou também muitos casamentos, cerca de mil. Teve mês em que Zanketti chegou a filmar dezenove casamentos, informa Cesaro em sua pesquisa. O cineasta só realizou um filme de ficção, contando a história de uma convertida. Em 75, ele escrevia uma seção no caderno ''Fotografia'' da Folha de Londrina, com o título ''Super 8'', em que passava aos leitores dicas de efeitos especiais, sonorização, iluminação, angulação e montagem.
Em 1987, é rodado o primeiro longa-metragem ficcional da história do cinema londrinense, ''Legal Paca'', película colorida, sob a direção e roteiro de Antônio Pereira Dias. O filme conta a história de um fazendeiro que, afundado em dívidas, vende suas terras para pagá-las, desempregando quase trezentas pessoas. A partir daí, o Jeca Tatu passa a interferir na situação.
''Legal Paca'' teve sua pré-estréia em Londrina a 23 de março de 88, no Cine-Teatro Ouro Verde. As filmagens ocorreram no patrimônio Regina, em Londrina. No elenco, somente atores locais: Antônio Pedro da Costa Filho (Jeca Tatu), Lázaro Câmara, Francisco Salles, Antônio Cardoso, Salete Vick Turi, Matãozinho, José Domingues, Izilda Ferreira, José Carlos Stuani, Lázaro Antônio Filho, Terezinha Ferreira, Benê Costa e Sofia Carvalho. O filme foi exibido apenas na região, e não se sabe certamente se existe alguma cópia disponível em vídeo ou em película.
Após esse longa, apenas um curta foi produzido em Londrina e região. Em 79, o belavistense Lourival Pontidura, aos 26 anos, rodou em Cambé o curta em super 8 ''Roubar o Próximo'', mostrando a vida dos bóias-frias. Em 87, ele dirigiu em São Paulo o curta em 35mm ''Imagem'', com fotografia de Chico Botelho. Após o fim da Embrafilme nos anos 90, a chegada do vídeo digital, da internet e da revalorização do super 8, instala-se uma nova fase do cinema londrinense, detalhada em texto nesta página.


