A vida no asfalto de Kerouac
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Jack Kerouac (1922-1969) é a história de uma viagem, que ainda faz muitos só confiarem nos loucos, como o rei com cara de vagabundo da geração beatnick. A sua passagem em alta velocidade deixou um rastro de revolução cultural, abrindo uma cratera no asfalto por onde escapuliram dos hippies aos punks e o que se entende também como parte da vanguarda.
Para o jornalista, dramaturgo e crítico literário londrinense Marcos Losnak, é difícil dizer quem hoje é influenciado por Kerouac, já que a batida que o escritor deu no guard rail, que mantinha seguro o ''american way of life'', precipitou no abismo de transgressão, loucura e lirismo todos os que se encantam com a sua narrativa sincopada.
''Jazz e bop, no sentido de um saxofonista tomando fôlego e soprando uma frase em seu sax, até ficar sem ar novamente e, quando isso acontece, sua frase, sua declaração é feita... É assim que separo minhas frases, como separações respirantes da mente'', sintetizou a sua forma de escrever, Kerouac. Um estilo que também é de viver, respirando profundamente a própria vida que, no caso do autor, terminou aos 47 anos de idade. Uma trajetória que é um fantasma inspirador de artistas, como o dramaturgo londrinense Mário Bortolotto.
Os 39 anos da morte do autor da bíblia beat, ''On The Road'', que no ano passado fez 50 anos desde a primeira publicação, serão lembrados, hoje, pelos que o seguem nesse pulo de cabeça na vida.
Para 2009, data emblemática dos 40 anos do desaparecimento de Kerouac, o cineasta brasileiro Walter Salles deve filmar o segundo road movie da carreira inspirado no livro clássico. Os direitos foram cedidos por Francis Ford Coppola, que os detêm desde 1979.
Um dos editores da revista literária londrinense ''Coyote'', uma das mais importantes publicações culturais brasileiras, Losnak revela que a edição número 18, que está para sair do forno, traz 15 haikais de Kerouac inéditos no Brasil.
Poucos sabem que o autor de ''On The Road'', que afrontou a própria vida ao se apresentar nu diante dela numa obra que é um relato muito pessoal, era ligado ao zen-budismo. ''Os haikais são frutos desse contato com a cultura japonesa. A grosso modo, esses textos são de dois tipos. O mais tradicional, como os japoneses, que falam de temas como as estações do ano e outros livres e semelhantes aos de Paulo Leminski, mudando os temas, imprimindo mais ritmo'', enfatiza Losnak.
O editor acrescenta que o beatnick, que teria sido influenciado por Neal Cassady (1926-1968) e que, depois dessa revolução cultural que levou William Burroughs (1914-1997) e Allen Ginsberg (1926-1997) ao que conhecemos como o lado mais obsceno e falta de censura de qualquer espécie, mudou a literatura mundial.
''Kerouac inseriu um novo elemento, que até então não existia na literatura. O que ele coloca na obra dele não é separado da própria vida. É totalmente autobiográfico e a postura que assume diante da vida contagiou muita gente'', avalia Losnak.
A literatura de Kerouac apareceu pela primeira vez na frente do londrinense Mário Bortolotto apresentada no livro ''O Que É Punk'', de Antônio Bivar, publicado pela Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense. ''Nunca tinha visto nada como aquilo, uma linguagem espontânea, rápida. Fiquei chapado. Me influenciou muito. Principalmente pela maneira livre de escrever e o jeito de viver. Eu queria fazer as coisas que ele fazia. Uma literatura totalmente ligada à vida. Vi que era possível fazer aquilo'', lembra Bortolotto, que não acredita que o escritor tinha a intenção de fazer uma revolução cultural.
''Ele morreu de uma maneira muito solitária. A fama pegou ele no contrapé. Não estava preparado para a fama'', afirma Bortolotto. A estrada para Kerouac terminou no hospital de St. Petersburg, na Flórida, onde morreu de hemorragia. O dramaturgo londrinense lembra que Kerouac recebeu uma educação católica e, como tal, não poderia se suicidar. Então, se matou de tanto beber.


