A vida navegando num mar de urtigas
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Há dias que uma parte dos humanos acorda com a boca amarga, injuriada com a vida, procurando algum grão de açúcar para colocar sob a língua. Nesses mesmos dias, outra parte das pessoas levanta radiante de seus confortáveis leitos repousados sobre ilhas de açúcar. Assim, nesses dias, a humanidade poderia ser divida em dois grupos, os homens de fracasso e os homens de sucesso.
Os homens de sucesso fazem questão de gritar pelas esquinas que estão nos braços do sucesso, em suas confortáveis ilhas de açúcar. Já os fracassados, preferem o silêncio. Um tipo de silêncio reflexivo onde o fracassado não é aquele que perdeu, mas aquele que se recusa a fazer parte de uma corrida idiota num mundo idiota. Nesse contexto, fracassado assume a imagem de herói.
O novo espetáculo da companhia Cemitério de Automóveis trafega nesse quadro, no heroísmo melancólico daqueles que se recusam a contribuir com sua ração de mediocridade ao mundo. Efeito Urtigão, que teve sua estréia no final de semana passado, reúne no palco Mário Bortolotto e Everton Bortotti no papel de dois amigos jornalistas. Um deles, Marcão, é um talentoso profissional que abandona tudo para viver isolado numa casa no meio do mato. Recusando-se a compactuar com a idiotice da imprensa e do mundo, isola-se. O outro, Everson, é um jornalista medíocre que visita o velho amigo, para conseguir a reportagem da sua vida. A idéia é inspirada na imagem de Hunter Thompson, jornalista norte-americano, e na imagem de Urtigão, antigo personagem dos gibis do Pato Donald. O chamado Efeito Urtigão seria o processo paradoxal pelo qual o isolamento torna-se mais interessante que a sociabilidade, ou seja, desperta mais curiosidade (vide J. D. Salinger, Thomas Pynchon e Dalton Trevisan).
Com texto e direção de Bortolotto, Efeito Urtigão é uma montagem despojada, idealizada para pequenos espaços, com o mínimo de iluminação e a quase total ausência de sonoplastia. Uma montagem pautada pelo texto, executada de maneira funcional com a naturalidade interpretativa dos atores.
Num primeiro plano Efeito Urtigão é um espetáculo pautado pela sátira, pelo humor ácido, mas revela em seu interior questões existenciais. O espetáculo é uma prova da evolução do Cemitério de Automóveis, evolução que se tornou sensivelmente visível nos últimos anos sob o comando de Mário Bortolotto.
Bortolotto desenvolveu uma estilo próprio e personalizado. Fiel a este estilo, conferiu uma verdadeira maturidade a ele. Trabalhando entre a sátira, a comédia de costumes, a crônica contemporânea do cotidiano, a ironia e o humor, coloca no interior de seus textos uma inusitada abordagem existencialista do mundo atual.
Todo o trabalho do Cemitério de Automóveis parte da agilidade narrativa dos textos de Bortolotto. Trabalha com um humor real, não totalmente cômico, como se a realidade fosse uma piada. Um dos ingredientes principais da dramaturgia de Mário está em tratar a vida como uma piada mal contada. E para encará-la é necessário brincar com ela.
Numa piada mal contada (a vida) há basicamente duas saídas. Uma seria cair fora, abandonar a piada e seu possível entendimento. A outra seria ficar e rir, não da piada, mas rir de como ela é mal contada.
Pelo teor humorado de Efeito Urtigão, numa primeira leitura o espetáculo pode ser divertido. Mas na realidade apresenta um beco sem saída existencial. Uma característica que se acentua lentamente a cada montagem do Cemitério de Automóveis.
A cada montagem a dramaturgia de Mário Bortolotto fica cada vez mais existencialista. Cada vez mais consciente e consequente. Por baixo da camada de humor e banalidades as questões existenciais se tornam mais consistentes. Os textos se prolongam como extensão um dos outros para construir um mapa, o estilo.





