A vida não tem fim
Um novo livro de Jamil Snege é sempre um acontecimento prodigioso. Não seria diferente agora em que acaba de publicar Viver é Prejudicial à Saúde, ( 77 págs.), nas bem cuidadas edições quase sempre concebidas por ele mesmo e por ele mesmo financiadas.
À margem do macro (macro?) circuito editorial tupiniquim, Snege segue sendo um insistente perguntador do mistério demais que há nas Letras, este vício a que nos aferramos desde sempre. Preciso, de uma precisão textual cirúrgica, e ainda assim comovida, Jamil Snege ocupa hoje, se bem que à margem, o lugar que invariavelmente foi dele - o de importante escritor deste fim-de-século o mais das vezes chué em que vige o sanatório das letras brasílicas. Sobram romancistas, pululam poetas das mais variadas estirpes, soçobram críticos e ensaístas de fim de semana, o país é tão confuso em estética quanto no varejo político. Aliás, o país, às vezes, é uma piada. Snege deixa que passem e até finge que lhes é indiferente, mas no fundo responde, a todo momento e a toda hora, responde a todos, aranha zelosa, com a renda de suas teias.
Em Viver é Prejudicial à Saúde temos de novo, fino privilégio, o prazer de degustar, página por página, mais um irrepreensível inédito de Jamil Snege, escritor a se situar, fácil, entre os poetas que, disfarçados de prosadores, aspiram, mais que dizer uma estória, contá-la, letra a letra, com as armas do coração. E aí está o seu pulo do gato: ultrapassar o verbo, transcender o parágrafo que se quis cena explícita para a síncope epifânica da melhor poesia. Ele pertence, sem erro, a esta família de criadores que nos deu, entre outros, Nabokov e Raduan Nassar, Machado e Clarice Lispector. Há que haver de fundo, e sempre, o gosto pela linguagem feito uma vertigem.
Ao traçar a lenda/legenda exemplar do pobre diabo que narra, ao longo das setenta e sete páginas de Viver..., uma estória de desejos e interdições, Snege está certo de que toda existência, desde determinado ângulo de visão, é melancolicamente tchecoviana, pálida e tchecoviana. Na ambiência de um medíocre escritório de arquitetura, dependente de prefeituras do interior, nosso herói é um fiasco enfrentando a passagem para a velhice - via dolorosa animada pelo horror à morte através da aderência a uma severa hipocondria. Senhor dos finalismos da vida, esta atividade absolutamente sem fim, suja por nossas vaidades fins, objetivos fins, alvos-fins, o lúdico cede lugar a um jogo de dados com a morte no decurso de espinhoso cotidiano. O narrador é um homem enredado em seus próprios limites. What a pity!





