'A Vida Invisível', melodrama clássico...
Filme de Karim Ainouz traz duas irmãs sonhadoras enfrentando um universo machista
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
Filme de Karim Ainouz traz duas irmãs sonhadoras enfrentando um universo machista
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
...e muito provavelmente um rico argumento que a teledramaturgia da Rede Globo produziria sem hesitar para o horário das nove (faixa nobre dos folhetins da emissora), entra hoje em segunda semana de exibição em uma única sala da cidade. É um belo filme brasileiro, nosso indicado para a pré-seleção do Oscar de fevereiro e não incluído na lista recém-divulgada pela Academia. Mas este descarte não ofusca o brilho da conquista este ano em Cannes, quando o trabalho do diretor Karin Ainouz levou o prêmio de melhor filme da mostra paralela Um Certo Olhar.
A adaptação para o cinema se baseia em novela de 2015, assinada por Martha Batalha, “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”. O título, mantido na estreia em Cannes, foi depois abreviado por razão óbvia: a “invisibilidade” a que se refere a história é a da personagem Eurídice mas também universal, estendida a todas as mulheres), e conta a história de duas moças muito unidas e sonhadoras, as irmãs Guida (Julia Stockler), em busca de mudanças e de um grande amor romântico, e Eurídice (Carol Duarte), pianista que sonha estudar música em Viena. De repente, elas se veem forçadas pelo intolerante pai católico (Antonio Fonseca) a se separar, no Rio de Janeiro nos anos 1950 – a reconstrução de época é de tirar o fôlego.
Apesar da distância e dos caminhos diferentes e complicados que cada uma é forçada a tomar, seguem lutando contra o patriarcado que as oprime. A existência dessas irmãs separadas pelos medos e preconceitos de uma sociedade machista é colocada ao espectador por uma copiosa série de cartas – enviadas por ambas mas nunca entregues – lidas em off ao longo da narrativa. O tom feminista do filme acontece não como emblema político , mas como resultado natural da convivência sofrida de duas mulheres com um marido e um pai tóxicos.

Ainouz faz deste impossível diálogo epistolar um recurso admirável, coadjuvado pelo refinado trabalho fotográfico da francesa Hélèle Louvart, embalado pela trilha musical com ecos contemporâneos de Benedikt Schiefer (dialogando com o repertório clássico interpretado pela personagem de Eurídice: esta a síntese da construção sonora e visual deste melodrama que torna mais densas as emoções do conteúdo através das formas, no geral criando uma atmosfera sensorial e barroca.
Em filmes como “Madame Satã” (2002), “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”(2009) e “Praia do Futuro”(2014), todos exibidos em Londrina através do viés alternativo, o cineasta Karim Ainuz demonstrou ser um contador de histórias mais apegado ao rigor autoral, mantendo-se à certa distancia do coração do público. Mas em “A Vida Invisível” traçou estratégia diversa: combinou sua porção cult com um espírito de alta frequência melodramática. E isto sem cair nas armadilhas fáceis dos clichês historicamente associados ao gênero. Seus personagens são dotados de surpreendente e afiada profundidade psicológica, habitantes de uma sociedade em que as mulheres eram propriedades de seus maridos ou de seus pais. Se de um lado há o transbordamento de melancolia, por outro lado o filme funciona também como forma de celebração, tanto da fortaleza e da solidariedade com que as mulheres são capazes de enfrentar a opressão e a manipulação masculinas como dos vínculos familiares que criamos como lenitivo para tudo aquilo que nos foi imposto.
Um dos dramas familiares consagrados pelo cinema convencionou que, quando dois irmãos se separam, um leva boa vida e o outro sofre. No caso de “A Vida Invisível”, as duas mulheres sofrem: Guida foge com um marinheiro, volta grávida sem o pai da criança e é expulsa por um pai reacionário e implacável; Eurídice se casa com um machista abusador, deixando de lado seu maior sonho, o piano. São duas mulheres lutadoras que, graças ao olhar de Ainouz, não são protagonistas de um roteiro estereotipado.
A interpretação do duo Julia Stockler/Carol Duarte é um maravilhoso e harmonioso duelo de convergência de almas, complementando o concerto de atuações onde brilham outras mulheres (e homens: Gregorio Duvivier em pura epifania machista...) Fernanda Montenegro entrega mais de sua magia quase centenária.


