'A Vida Gritando nos Cantos'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Roberta Pennafort <br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - Atenção, aficionados por Caio Fernando Abreu (1948-1996) no Facebook e no Twitter: tem livro novo nas lojas. ''A Vida Gritando nos Cantos'' é uma reunião de mais de cem crônicas que o escritor gaúcho publicou no ''Caderno 2'' do jornal o Estado de São Paulo (e que se mantiveram inéditas em livro) de 1986 a janeiro de 1996 - um mês antes de morrer e dois anos depois de receber a notícia de que era soropositivo, a qual revelou em sua coluna semanal.
E não é só isso: na carona da onda pop em torno dele, além do relançamento de sua obra está nos planos uma exposição em Porto Alegre de objetos cedidos pelos herdeiros (quatro irmãos). ''Já tínhamos planejado os relançamentos para a inclusão dos livros nas novas regras de ortografia. Estamos adorando essa divulgação espontânea'', conta a editora responsável, Janaína Senna. ''Como bom autor clássico, ele fala a leitores de todos os tempos. É o que acontece com a Clarice Lispector, que também é muito citada.''
Ainda este ano, na sequência de ''A Vida Gritando nos Cantos'', a Nova Fronteira repõe nas livrarias ''Os Dragões Não Conhecem o Paraíso'' (1988) e ''Pequenas Epifanias'' (1996). As novas capas devem seguir o espírito pop do novo culto a Caio F., citado diariamente nas redes sociais em frases soltas por gente que provavelmente nunca leu seus contos, romances e peças de teatro.
A imagem da vida (o importante, as necessidades primordiais) gritando em meio aos afazeres do cotidiano saiu da crônica ''Querem Acabar Comigo'', de 29/4/1987. Ele se queixa da impossibilidade de sair para ver o mundo além da escrivaninha com a máquina de escrever. De escrever para viver, e não o contrário.
''Ando cansado. Hoje estou me permitindo escrever sobre esse cansaço indivisível, sobre minha falta de tempo, sobre a desordem que se instaurou em minha vida. Por trás disso tudo, o mais perigoso espreita: a grande traição que estou cometendo, todo dia, comigo mesmo. Porque escrevendo assim, para sobreviver, não escrevo o que me mantém vivo - outras coisas que não estas.''
Para quem acompanha os lançamentos póstumos, o livro é uma continuação de ''Pequenas Epifanias'', lançado seis meses depois da morte de Caio. Em textos dispostos em ordem cronológica - o que permite ao leitor acompanhar o desencadeamento de seu pensamento conforme o passar das semanas, meses e anos -, estão reflexões sobre o cotidiano, os filmes que via, os livros e os discos que lhe faziam a cabeça.
A apresentação é de Italo Moriconi, para quem Caio, voz dos anos 70, 80 e 90, se conecta diretamente ao ''jovem adulto urbano brasileiro antenado'' e seduz novas gerações por trazer questões universais à sua escrita clara e sensível.
As crônicas foram reunidas por Liana Farias e Lara Souto Santana, duas pesquisadoras apaixonadas que, sem se conhecer, se dedicaram durante meses a vasculhá-las.
SERVIÇO
A Vida Gritando nos Cantos
Editora: Nova Fronteira (248 págs., R$ 49,90)


