"A Vida em Preto-e-Branco" é a estréia mais intrigante deste final de semana nos cinemas
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quarta-feira, 28 de abril de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 29 (AE) - Steven Soderbergh é o nome por trás da produção de "A Vida em Preto-e-Branco", que estréia amanhã (30). Como declarou numa entrevista recente, ele morre de medo de repetir-se, por isso está sempre buscando coisas novas. Soderbergh é um dos produtores de "A Vida em Preto-e-Branco", com o diretor Gary Ross e Jon Kilik e Robert J. Degus. É a estréia mais intrigante de amanhã.
Não espere nada 100% original, mas algo criativo e bem-humorado. A originalidade absoluta não existe em arte. O diretor Ross com certeza bebeu na fonte de Woody Allen (A Rosa Púrpura do Cairo) e deve ser daqueles que cultuaram o filme checo "Um Dia, um Gato", de Vojcech Jasny. No filme de Allen, uma garçonete entra para dentro da tela, participando de movimentadas aventuras ao lado do seu astro preferido. No de Jasny, um gato faz com que as pessoas assumam diferentes cores, de acordo com seus estados de espírito.
"A Vida em Preto-e-Branco" começa com uma espécie de nerd obcecado por um programa de TV. O programa chama-se "Pleasantville" e narra a vida numa cidadezinha americana onde tudo é perfeito. Tão monotonamente perfeito que o mundo de "Pleasantville" é em preto-e-branco. David simplesmente sabe tudo sobre a série. A irmã caçoa dele. Por um passe de mágica (e graças à interferência de um misterioso personagem) vão parar os dois, David e Jennifer, dentro da TV. Angélica fez a mesma coisa num filme brasileiro recente, mas "Zoando na TV" era (ou é) lixo puro em relação a "A Vida em Preto-e-Branco".
Mesmo sem querer (mas ela, talvez, querendo, pois detesta Pleasantville), David e Jennifer vão subverter as regras deste mundo de fantasia. Ela o faz pelo sexo. A primeira coisa que faz é seduzir o capitão do time da escola. Numa época em que as garotas têm de preservar a virgindade, Jennifer chega com a liberalidade de quem vive num mundo onde os padrões de comportamento mudaram. Houve Woodstock e o amor livre, a pílula e o feminismo. O capitão, iniciado no sexo, olha para o jardim da casa de Jennifer e, pela primeira vez neste mundo em preto-e-branco, aparece um rosa com a cor vermelha da paixão.
A partir daí, é subversão pura. "Pleasantville" nunca mais será a mesma. À medida que as pessoas vão explodindo seus códigos de comportamento e assumindo uma atitude mais libertária
vão assumindo cor e destacando-se no mundo em preto-e-branco. O resultado não é só um primor de tecnologia de ponta. Graças aos efeitos digitais, os personagens coloridos destacam-se no fundo preto-e-branco. Isso só foi possível por meio de efeitos digitalizados. Eles impressionam claro, mas o que cativa em "A Vida em Preto-e-Branco" é o tom de fábula.
Talvez o filme se perca um pouco, lá pelas tantas. Fica complexo demais e o diretor Ross adota soluções um tanto simplistas. Mas a verdade é que há muita coisa em jogo (ou em discussão) no mundo de Pleasantville. O aspecto mais óbvio é o racismo. À medida que as pessoas se vão colorindo, despertam a animosidade das que permanecem em preto-e-branco. Um homem, o dono da lanchonete da esquina, interpretado por Jeff Daniels, começa a produzir obras de arte que escapam à compreensão dos seus conterrâneos. A população reúne-se para destruir suas obras de arte, para queimar livros - formas tradicionais da repressão.
É o tema de "A Vida em Preto-e-Branco": o velho embate entre subversão e tradição, os riscos de uma vida colorida em contraposição à monotonia do cotidiano em preto-e-branco. A evolução de Jennifer, como personagem, interpretada por Reese Witherspoon, é mais convincente do que a de David (Tobey Maguire), mas a verdade é que ambos evoluem: a garota fútil, que só pensa em sexo, adquire uma maturidade e o nerd vira esperto sem descer ao plano comum da imbecilização. Mas a grande personagem de"A Vida em Preto-e-Branco" é a mãe.
Será a personagem ou a atriz? Mesmo numa fantasia, Joan Allen cria uma personagem multifacetada e complexa. Poderia e até deveria ter sido indicada para o Oscar. William H. Macy, como o pai, não é inferior. Ele começa o filme risonho, gritando ao entrar pela casa, "Honey, Im home". Logo a cidadela do lar é violada e o grito perde o sentido. Macy passa para o espectador toda a perplexidade de George. Não é perfeito, mas é um belo filme, que levanta questões importantes que permanecem com o espectador, após a projeção.


