A VIDA É UMA ARTE - Na terceira idade
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de setembro de 2001
Francelino França e Katia Michelle 
No clássico da dramaturgia grega, ''Antígona'', de Sófocles, a protagonista tem como característica a determinação contra as ordens do poderoso Creonte. Luta em direção ao destino funesto. Nessa peça, a atriz Jandira Testa, 66 anos, interpreta a personagem cuja incumbência é contar a Creonte que Antígona enterrou o irmão, mesmo contra a vontade do rei. Ao interpretar o chefe da guarda, Jandira Testa, integrante do Grupo de Theatro Fase Três de Londrina, descobriu até onde vai o limite de cada um. Viúva e com os filhos casados, em 1989 aceitou o convite de uma amiga para conhecer o grupo de teatro e não saiu mais. Melhorou a auto-estima e o teatro funcionou como ação profilática. Doença é uma palavra descartada do vocabulário da atriz, com pressão arterial de criança.
''O teatro dá oportunidade de nos entendermos melhor como pessoa'', reitera. Ao compartilhar sua experiência com outros atores, inclusive jovens e crianças, num grupo cujo trabalho obteve reconhecimento, mais do que uma viagem pessoal, seu papel de cidadã foi valorizado. ''Cada peça precisa de muita pesquisa'', prossegue. Em seu primeiro trabalho sua participação se resumiu a passar pelo palco com uma faixa. ''Em Londrina, Zona Paraíso'', a segunda peça, já falava alguma coisa. ''O teatro foi importante para perder a timidez e fazer novas amizades'', ressalta a atriz, que com o Fase Três viajou para a Alemanha, representando o Brasil num Festival de Teatro para Idosos. Recentemente, Jandira Testa participou do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (SP), no espetáculo ''X Vezes Gente Cadeira''. As apresentações valeram uma reportagem no Jornal da Globo e um quadro humorístico no programa Casseta & Planeta.
Sua individualidade também está mais valorizada na família, com os netos interessados nas estréias da avó. A atriz reitera: ''quem faz arte vive mais e melhor. A memória vai ativando''. Na peça ''A Cantora Careca'', decorou textos quilométricos e com facilidade. Seu método é estudar o texto em voz alta.
Na memória afetiva da atriz Cecília Garcia Souza, 57 anos, mora um circo. Aos quatro anos, Cecília já assistia às encenações de ''Sansão e Dalila'' e ''Tristão e Isolda'', em Rolândia. Ela rememora que não havia água encanada no circo e, muitas vezes, os artistas recorriam a sua mãe. ''Eu perguntava a minha mãe por que Dalila cortou o cabelos de Sansão e como as colunas puderam se espatifar no chão''. As histórias trágicas de picadeiro perduraram adormecidas no subconsciente de Cecília, que hoje interpreta Jocasta, no espetáculo ''Antígona''. ''Minha vida mudou radicalmente depois que comecei a fazer teatro. Nunca imaginei que um dia viria fazer uma tragédia'', diz sorridente. Além dos ensaios, apresentações e viagens, ela acumula a função de presidente do grupo. Apesar de o marido não gostar de teatro, ela avisa que não adianta colocar empecilhos. ''Quanto mais se estuda um texto, mais você vai aprendendo sobre o próximo'', afirma Cecília, que estuda seus textos na cozinha. ''De vez em quando, eles ganham um pouquinho de gordura'', revela. Sempre que possível, Cecília aprende com os filmes clássicos americanos. ''Faço crochê e leio as legendas. Mas, às vezes, deixo queimar comida'', revela.
Jandira Testa e Cecília Garcia Souza dissiparam o arquétipo da avó triste e amargurada. Com a expectativa de vida aumentando e o número de idosos no Brasil verticalizando, é cada vez maior o número de idosos que enveredam para as ramifacações da arte, não para ocupar o tempo ocioso, mas para ampliação de horizontes, participação efetiva da vida comunitária. ''Fazemos teatro com amor e com a maior alegria do mundo. Podemos estar cansadas, mas a cabeça leve como uma pluma'', afirma Jandira. A cultura é o caminho mais curto para a inserção do idoso como cidadão, sem o caráter paternalista de apenas entretê-lo para passar as horas.
Cercado de instrumentos musicais, na sala do Colégio Mãe de Deus, tradicional instituição de Londrina, Aymoré Kley, 78 anos, executa o 1º movimento do concerto nº 5 - allegro moderato - de Seitz. ''Tem de acentuar o primeiro Si. O segundo não pode ser acentuado'', corrige a professora de violino Denise Ferraz. Pioneiro apresentador de rádio e TV de Londrina, Aymoré Kley, funcionário aposentado do Banco do Brasil, adquiriu na juventude um violino modelo Stradivarius.
Em 1945, vendeu o instrumento quando enfrentava dificuldades financeiras. Depois de muita insistência e de um hiato de 40 anos, conseguiu comprar de volta o mesmo violino. ''Na época, paguei uns 700 cruzeiros. O estojo estava em farrapos e o instrumento estava todo arranhado e quebrado e mandei consertá-lo'', conta.
Ancorado no método Suzuki de música, Aymoré explica que cada livro acompanha um disco com play back com acompanhamento de piano ou orquestra. ''Isso entusiasma'', diz o aluno assíduo, que não perde uma aula. Quando viaja - ele já deu a volta ao mundo - costuma repor as aulas perdidas. ''Todo dia eu ensaio um pouco'', declara. Aymoré Kley busca na música uma forma de educar a mente e o espírito, sem se preocupar com apresentações. Faz poucas audições com a orquestrinha do Colégio e se diz muito satisfeito.
Desejo de mudança, de sair da rotina, de novas experiências. É difícil definir a motivação que leva as pessoas - independente da faixa etária - a iniciar uma atividade artística. As justificativas dependem do gosto pessoal e da personalidade de cada um. ''Mas sempre esbarram no medo de se expor, quando se está na maturidade'', acredita a professora aposentada Lacy Eich. Aos 55 anos, ela decidiu começar uma atividade onde pudesse se expressar através da arte e viver novas situações. Optou pelo teatro.
Lacy conta que teve que adiar o sonho de fazer teatro, que acalentava desde criança, para se dedicar ao trabalho e a família. Depois que se aposentou resolveu dar-se esse tempo. ''É uma experiência fantástica'', resume. Segundo ela, desde que começou a estudar teatro, sua forma de ver o mundo mudou. ''Aprendi a observar as coisas e a parar de me preocupar com que as pessoas pensam de mim'', revela. Confessa que não tem total apoio da família, mesmo com o marido e os três filhos não sendo contra a atividade que escolheu.
Para a professora aposentada, o teatro é uma alavanca para a sua vida. Nesse caso, a periodicidade é fundamental. Lacy frequenta toda semana o curso da Academia de Artes Cênicas Cena Hum, em Curitiba. ''Fico contando as horas para chegar o dia da aula'', confessa.
Para a aposentada Florisbela Oliveira Ribeiro, conhecida como Dona Belinha, a arte é indispensável para qualquer ser humano, mas quando se chega na terceira idade (ou melhor idade, como preferem alguns) ela é fundamental. Aos 67 anos Dona Belinha já completa uma década de participação no coral do Sesc, em Curitiba. Diz que sempre gostou de cantar, mas nunca teve tempo de se dedicar à vocação. Depois que passou a fazer parte do coral, a motivação veio também para outras manifestações artísticas. No ano passado, ganhou um violino e contratou um professor particular. ''A música cria uma nova alma para gente'', define.
A também aposentada Léa Lopes Arturi, de 71 anos, partilha da opinião. Ela começou a dançar, no grupo do Sesc há 20 anos, quando ficou viúva. No caso de Léa, a partir disso a vida passou por uma transformação. Foi depois que começou a dançar, que ela conheceu o seu segundo marido. Com ele frequenta os bailes todas as semanas. ''A dança tira a tristeza da gente'', defende.


