Especial para a Folha2
Quando estamos com a conta de luz atrasada, o telefone cortado, a conta bancária encerrada, arroz e ovo frito nas refeições, moedas contadas para o ônibus, sapatos furados para os dias de chuva, amigos cobrando o dinheiro emprestado, enfim, quando estamos ‘‘duros e mal pagos’’, chegamos a acreditar que a existência se resume numa equação básica: vida = dinheiro.
A dificuldade monetária, a não satisfação das necessidades básicas, pode levar, e geralmente leva, à extinção do bom senso. Com um pouco de reflexão somos obrigados a admitir que a equação vida = dinheiro ou dinheiro = vida é completamente equivocada, não verdadeira. Em essência, a vida não deveria estar a serviço do dinheiro. O dinheiro é que deveria estar a serviço da vida.
Elaborar questões e procurar respondê-las através da reflexão pode não ser uma prática constante nas relações cotidianas, mas podem nos auxiliar a não viver num mundo de aparências. A filosofia, em seus infindáveis questionamentos, pode ser um adequado instrumento para esse auxílio.
A Jorge Zahar Editor está lançando um pequeno livro, direcionado a leigos, que exercita questionamentos básicos da vida que sempre estiveram presentes na história da filosofia. Organizado pela revista francesa ‘‘Le Nouver Observateur’’, ‘‘Café Philo - As Grandes Indagações da Filosofia’’ traz vinte ensaios escritos por diferentes pensadores e pesquisadores sobre temas como liberdade, verdade, amor, morte, ser, deus, progresso, natureza, revolta, razão, ação, memória, felicidade, etc.
Colocando questões e procurando respondê-las, Jean Baudrillard debruça-se sobre ‘‘a incerteza é nossa única certeza?, Edgar Morin sobre ‘‘a ciência sem consciências está condenada?’’ e André Comte-Sponville sobre ‘‘o amor é falta ou plenitude?’’ e muito mais. As questões avançam por vários caminhos: a natureza é uma obra de arte? Existe vida antes da morte? Devemos compreender o mal? Toda verdade é ilusória? Somos dignos de ser livres? O fim do Estado é inevitável? A ação nasce sempre com a reflexão? Podemos fugir às nossas responsabilidades? Deus das almas ou Deus das armas? A memória é o futuro do homem? Em face do consenso, a salvação passa pela revolta? A felicidade é nosso único objetivo? O que devemos fazer com o ser?, etc.
Em ‘‘Café Philo’’ há bons textos, outros nem tanto, textos de forte impacto, outros nem tanto - mas a média geral é visivelmente positiva. Michel Onfray, por exemplo, escrevendo sobre ‘‘revolta’’ realiza uma inflamada radiografia da atualidade, um tempo que cheira pólvora e morte, onde o amanhã ideal é vendido com o objetivo de empurrar garganta a baixo um hoje insuportável. Onfray utiliza as idéias da corrente filosófica dos Cínicos, representado na figura do grego Diógenes, para demonstrar que vivemos sob o império do ‘‘cinismo vulgar’’ em detrimento do ‘‘cinismo filosófico’’
Eliette Abécassis, abordando o ‘‘mal’’, oferece bons subsídios para uma reflexão mais profunda sobre o tema. Tratando o mal como um enigma para o pensamento, suas palavras começam do básico: O primeiro tipo mal que devemos analisar é o mal humano em sua expressão mais comum, o ódio ao outro, sentimento que leva a querer a destruição do próximo. O mal, enquanto ódio, é consciência: não se pode odiar sem saber que se odeia. Além disso, o ódio ao outro pode inclusive ser a fonte da consciência se si: detestar é existir em face do outro e, portanto, em face a si mesmo.
No próximo degrau da escada encontramos o mal assumindo a forma de barbárie, quando o ódio passa a ser socializado:O ódio socializado é um ódio neutro, eticamente justificado, normalizado. A construção social do mal inclui também uma construção ideológica - pela ciência, biologia e medicina - como corpo de idéias e como autoridade, pela região e a ética, quando são os suportes do fanatismo, para fundar a política do mal organizado, ou totalitarismo.
Escrevendo sobre ‘‘amor’’, André Comte-Sponville aponta o egoísmo, muitas vezes combatido, como uma forma de amor: É o amor de si mesmo, cuja existência e força não podemos contestar muito. Se não nos amássemos a nós mesmos, como poderíamos nos preferir, como é claro que fazemos quase sempre, e por que desejaríamos ser amados? Utilizando Spinosa, chega ao seguinte beco sem saída: O amor é uma potência - potência de gozar e de regozijar-se - mas limitada. Por isso ele também amar nossa fraqueza, nossa fragilidade, nossa finitude. Poder gozar e poder sofrer caminham juntos, como alegria e a tristeza, e é o que significa o amor: que estamos fadados à instabilidade, à esperança e ao temor, ao gozo e à falta, enfim ao trágico e a insatisfação.
Utilizando a imagem da vida como uma imensa floresta, devemos permanecer atentos às armadilhas sutilmente espalhadas em suas sombras, armadilhas tipo vida = dinheiro. Talvez a prioridade estaria em conhecer estas armadilhas em vez de procurar quem as espalha. Michel Meyer, escrevendo sobre ‘‘ação’’ sinaliza uma das trilhas no interior da mata: A ação só é possível caso o homem se desprenda da natureza, vença o reinado da necessidade e da carência biológica. Não conseguindo, deve humanizá-la e dominá-la ao máximo fazendo como se, ao contrário do animal, pudesse resolvê-la brincando. Vestirá portanto seu corpo, elaborar-lhe-á as carências, que até transformará.
O prazer é apenas essa inversão da necessidade em recurso: a exigência de se nutrir se transformará em culinária; a de se reproduzir, em amor; a de se proteger contra o frio e o calor, em vestuário, até mesmo em moda. Em suma, graças a esse recalque, a esse deslocamento do natural nele, o homem ganha em liberdade, isto é, liberdade de agir para ir rumo a outros fins que aqueles destinados por sua constituição biológica.
•‘‘Café Philo - As Grandes Indagações da Filosofia’’ organizado por Le Nouvel Observateur, Jorge Zahar Editor, textos de Paul Ricceur, Jean Daniel, Serge Moscovici, Michel Onfray, André Comte-Sponville, Robert Misrahi, Dominique Lecourt, Jean-Michel Besnier, Gianni Vattimo, Michel Meyer, Chantal Thomas, Ruwen Ogien, Edgar Morin, Laurent Mayet, Christian Jambet, Jean-Luc Marion, Jacques Julliard, Eliette Abécassis, Jean Baudrillard, Jean-Toussaint Desanti e André Burguiere. Tradução de Procópio Abreu, revisão técnica e prefácio de Danilo Marcondes. 144 páginas. Preço: R$ 16,00.

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