A vida é breve para o amor
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de março de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Jostein Gaarder volta à história da filosofia, desta enfocando o pensamento de Santo AgostinhoAté que ponto o amor entre um homem e uma mulher pode influenciar um pensamento filosófico? Até que ponto a paixão pode funcionar como uma lente que dimensiona uma noção do mundo? Até que ponto um amor desfeito pode tumultuar a compreensão da vida? Até que ponto a paixão é incompatível com o pensamento de uma vida melhor após a morte?
Estas perguntas, se respondidas, podem refletir o sentido do último livro do escritor norueguês Jostein Gaarder, Vita Brevis - A Carta de Flórida Emília para Aurério Agostinho lançado pela Editora Companhia das Letras. Autor do best-seller O Mundo de Sofia, Gaarder volta a visitar a história da filosofia, agora enfocando os pensamentos de Santo Agostinho.
O argumento do escritor é interessante. Santo Agostinho (354 - 430), grande responsável pela estruturação do pensamento cristão, antes de se dedicar à Igreja Católica, teve uma vida mundana governada pelos prazeres do corpo. Manteve uma relação amorosa por mais de 10 anos com Flória Emília, com quem teve um filho, Adeotado. A moça acabou sendo abandonada sem a possibilidade de ver o próprio filho. Mesmo abandonada, Flórida jurou fidelidade absoluta, por toda a vida, a Agostinho.
Vita Brevis recria esta história de amor renegado por Agostinho do ponto de vista de Flória. Escrito em forma de carta, Flória vai desfiando, passo a passo os sentimentos do amado quando viviam juntos e seus pensamentos registrados em seus escritos Confissões - livro que se tornou um dos pilares da filosofia cristã. Primeiro um homem dedicado aos prazeres sensuais da vida, depois um homem amargo negando qualquer tipo de satisfação do corpo.
Flória Emília argumenta como o pensamento de Agostinho - e consequentemente todo pensamento do catolicismo - foi pautado pelo medo da vida, pelo desprezo aos laços amorosos, pela fuga da sensoridade do corpo, e até por um certo narcisismo.
O texto de Gaarder toca em pontos interessantes como a suposta relação edipiana entre Agostinho e sua mãe, Mônica - que expulsou Flória de sua residência. Levanta a suposição de que só depois da morte da mãe, foi que Agostinho isolou-se do mundo terreno para construir seu pensamento de mundo celeste. A perda de uma paixão incestuosa dando origem a uma negação da carne.
Convém dizer que foi Agostinho que construiu o conceito cristão de separação do corpo e alma. Elegeu o alma como o objetivo máximo do homem na Terra e o corpo a fonte de pecado. Platão, muito antes, havia definido o homem como uma alma que se serve de um corpo. Agostinho foi mais adiante e elegeu os prazeres do corpo como o maior barreira para que o homem chegasse aos céus.
O pecado é, segundo Agostinho, uma transgressão da lei divina na medida que a alma foi criada por Deus para reger o corpo e o homem, ao subordinar a alma ao corpo cai, em pecado. Para ele, os prazeres do corpo - comer, beber, dormir, sexo, etc. - eram os grandes responsáveis pela distância entre os homens e o reino de Deus.
Por outro lado, Flória Emília pergunta se separar o corpo da alma não seria estragar a obra de Deus: A vida é tão curta que não temos tempo para proferir nenhum julgamento condenatório sobre o amor. (...) Sou de opinião que é arrogância humana rejeitar esta vida - com todas as suas alegrias terrenas - em favor de uma existência que talvez não passe de uma abstração. (...) Somos livres para ter esperança numa vida após esta. Mas não somos livres para tratar mal uns aos outros e a nós mesmos, quase como um instrumento para alcançar uma existência da qual não sabemos nada.
Historicamente o pensamento de Agostinho está inserido no período em que o Império Romano estava em destruição. De certa forma ele, como cristão, precisava de argumentos para combater aqueles que acusavam o cristianismo de responsável pela queda romana. Agostinho alegava que esta queda não era nenhum desastre, mas as mãos de Deus castigando um povo em pecado, elegendo, assim, as virtudes do cristianismo. Não há ponto sem nó.
Jostein Gaarder alega que escreveu Vita Brevis baseado num manuscrito que encontrou, em 1995, num sebo de livros raros em Buenos Aires. Este documento, escrito em latim, seria uma cópia de uma carta de Flória a Agostinho. Se este documento é real ou não, ou se realmente existe, não existe nenhuma prova concreta.


