"A Vida É Bela" chega às locadoras
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quarta-feira, 07 de julho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 08 (AE) - Em março, quase toda a crítica brasileira escrevia que, com certeza, Josué e Dora levariam o Oscar de melhor filme estrangeiro da Academia de Hollywood. Restava saber que Josué e que Dora. Venceram os do filme italiano "A Vida É Bela", de Roberto Benigni, derrotando os da produção nacional "Central do Brasil", de Walter Salles. Dora é a personagem de Fernanda Montenegro em "Central" e a de Nicoletta Braschi em "A Vida É Bela". Josué é o nome do garoto dos dois filmes. O de Benigni chega na semana que vem às locadoras. É um lançamento da Paris (nos cinemas, o filme foi distribuído pela Lumire).
Se repetir o êxito do cinema, "A Vida É Bela", com certeza, será também um sucesso nas locadoras. Não será de admirar se o filme de Benigni entrar logo para a lista dos mais retirados. O fato de o filme ter vencido um prêmio que parecia certo de "Central do Brasil" não diminuiu o entusiasmo do público do Brasil por "A Vida É Bela". Até o roteiro foi editado no País (pela Cia. das Letras). Chega a ser curioso cotejar os números. A diferença atual entre os dois filmes é de menos de mil espectadores. "Central do Brasil" fez 1,593 milhão de espectadores no País. "A Vida É Bela" estava até hoje com pouco mais de 1,592 milhão (o filme ainda está em exibição em cinemas do interior do Brasil).
É um lançamento, em vídeo, tanto mais oportuno porque agora, passada a fase de disputa acirrada, de lobby e tudo o mais, o espectador poderá ver o filme de maneira menos apaixonada, valorizando mais suas qualidades. Desde que recebeu o prêmio do júri no Festival de Cannes do ano passado, "A Vida É Bela" colecionou troféus e polêmicas. Muitos críticos acharam desrespeitoso que Benigni recorresse às armas da fantasia e do humor para falar sobre o horror do holocausto. O próprio Benigni repetiu diversas vezes que, em nenhum momento, quis ser desrespeitoso em relação à shoah. Lavou a alma quando o filme foi aplaudido de pé em Jerusalém.
"A Vida É Bela" tem uma primeira parte encantadora. É difícil resistir ao assédio de Guido, o personagem do próprio Benigni, a Dora. O "bongiorno principessa" com que ele saúda a amada é uma das falas já consagradas do cinema. A cena em que ele corre o tapete e transforma a almofada em guarda-chuva para proteger Dora é poesia pura. Na segunda parte, muda o tom e a experiência no campo de concentração, quando Guido tenta ocultar a tragédia do filho, coloca o verdadeiro tema de "A Vida É Bela". O título vem de Trotski, que teria dito a frase enquanto esperava os sicários de Stalin, no México, mas o que importa é que, nessa segunda parte, Benigni toca o inominável. Como contar o horror? Até que ponto a experiência dos campos de extermínio pode ser transformada em conto? A cena em que Guido faz a tradução das palavras do oficial alemão e conta uma fantasia para iludir Josué é elucidativa do que o ator e diretor quer dizer. Num artigo muito interessante para o jornal "O Estado de S.Paulo", o estudioso Andrea Lombardi levanta o que lhe parece o aspecto mais discutível de "A Vida É Bela". Não, não é o ato de rir da shoah. De Aristóteles a Freud, o efeito catártico do riso não pode nem deve ser subestimado. É a ausência de luto pelo pai. No filme, Guido sacrifica-se pelo filho, que exulta no fim porque, como diz, "vencemos".
Há algo de alienado e escandaloso nesse entusiasmo excessivo de Josué pelo tanque, que o espectador pode atribuir, talvez, ao fato de ele ser uma criança. Mas não é preciso invocar a psicanálise para saber que, sem luto, não há eliminação do trauma. Por isso mesmo é que vítimas de ditaduras, até mesmo no Brasil, reivindicam o direito de enterrar seus mortos. Talvez seja esse, afinal de contas, o tema de "A Vida É Bela", para ser pensado e discutido agora que o filme está em vídeo. A relação de Guido com o filho, a de Josué com o pai e a do espectador com a shoah. O horror da morte e do extermínio precisa ser nomeado para que não retorne nunca. Serviço - "A Vida É Bela" (La Vita É Bella). Itália, 1997. Direção e interpretação de Roberto Benigni. Distribuição Paris. Colorido, 116 min.


