‘‘Prezado Senhor, Prezada Senhora’’, livro organizado por Walnice Nogueira e Nádia Battella Gotlib, reúne estudos sobre cartas, um gênero literário em franco processo de extinção
Caro Alberto,
Primeiro peço desculpas pela demora em responder sua carta. Você sabe, sou meio enrolado e, junto com a senhora preguiça, demoro um pouco para escrever.
A demora também teve outro motivo. Fiquei entretido com a leitura de um livro que, por ironia do destino, abordava justamente o tema ‘‘cartas’’. Chama-se ‘‘Prezado Senhor, Prezada Senhora’’ e foi publicado recentemente pela Editora Companhia das Letras. Organizado pela pesquisadoras Walnice Nogueira Galvão e Nádia Battella Gotlib, reúne 42 textos de diferentes autores sobre a correspondência de várias personalidades históricas, literárias e políticas. Entre elas estão Fernando Pessoa, Machado de Assis. D. Pedro I, Marquês de Sade, Mário de Andrade, Karl Marx, Pedro Nava, Marcel Proust, Hannah Arendt, Ana Cristina César, José de Alencar, Sigmund Freud, Monteiro Lobato, Eça de Queirós, Guimarães Rosa e Getúlio Vargas.
O subtítulo da obra, ‘‘Estudos Sobre Cartas’’, resume bem seu conteúdo. Resume mas também engana. Isso porque grande parte dos textos se fecham dentro de princípios acadêmicos com fins em si mesmos. Para compor o livro, as organizadoras partiram de uma exigência básica: os colaboradores deveriam ‘‘escrever um texto em que a questão central fosse a leitura de cartas que, por algum motivo, suscitassem interesse e adquirissem relevância’’. Como praticamente todos são professores e pesquisadores acadêmicos tenderam, naturalmente, a não extrapolar a latente simbologia da correspondência e suas possíveis representações.
Vou tentar ser mais claro: a maioria dos textos de ‘‘Prezado Senhor, Prezada Senhora’’ não atinge a alma das cartas e suas significações – tratam basicamente do corpo da correspondência. Com objetivo de cercarem objetivamente o tema, os autores acabaram engessando o assunto.
É lógico que estou levando em conta o sentido geral das cartas e não apenas palavras escritas numa folha e enfiada dentro de um envelope. Fico pensando no prazer em receber um envelope das mãos do carteiro, abri-lo e, metaforicamente, encontrar uma pessoa lá dentro conversando com você. Existe ainda a possibilidade de ler a mensagem várias vezes; e até mesmo guardá-la por anos e anos. É como se um pedaço do espírito do remetente ficasse tatuado no papel, registrado no espaço através dos tempos. E me parece inegável que carta é literatura.
Sabemos que as cartas são um meio de comunicação em acelerado processo de extinção. A popularização do telefone foi o primeiro grande golpe na comunicação via correio. O segundo golpe assistimos agora, com a popularização do correio eletrônico via internet. Se por um lado o telefone retirou a prática da escrita da comunicação interpessoal, a internet parece ser responsável pela volta do hábito da escrita entre os homens. Pelo menos isso é o que prega um grande número de pensadores otimistas.
Eu, particularmente, prefiro esperar que o tempo se encarregue de revelar a verdade. E não podemos nos esquecer que nos três meios (carta, telefone e e-mail), os interlocutores estão física e geograficamente separados – mas a carta é o registro menos ‘‘industrial’’ e mais ‘‘humanizado’’. Isso porque ela pode conter a caligrafia do emissor, uma característica única e pessoal.
Sei que você vai dizer: ‘‘Larga de ser chato, o que vale é as pessoas estarem se comunicando, conversando, fazendo uso da palavra, o resto, os meios que elas utilizam para isso, são detalhes técnicos’’. Está bem, tenho que admitir que tudo o que eu disse contradiz meus argumentos da carta anterior, que era justamente sobre minha mania de fugir do assunto principal. Você já me cansou de dizer: primeiro, os livros existem para serem lidos; segundo, quando lidos podem ser amados ou contestados; terceiro, quando contestados deve-se levar em contar que toda e qualquer obra é aquilo que é, não aquilo que achamos que ela deveria ser. Um dia eu aprendo.
Acabo de me lembrar de outra vantagem que as cartas possuem. O remetente tem um tempo maior para se arrepender do que escreveu, pode rasgar a mensagem até no último momento, no balcão do correio. Estou em dúvida. Será que envio-lhe esta carta?
Abraços,
Marcos
•‘‘Prezado Senhor, Prezada Senhora - Estudos Sobre Cartas’’, organização de Walnice Nogueira Galvão e Nádia Batella Gotlib, Editora Companhia das Letras, texto de E. M. de Melo e Castro, Gloria Carneiro do Amaral, José Mindlin, Tiago C. P. dos Reis Moraes, Eliane Robert Moraes, Benedito Nunes, Michael Hall, Laura de Mello e Souza, Munira H. Mutran, Michel Riaudel, Flávio Aguiar, Lucette Petit, Celso Lafer, João Roberto Faria, Maria Helena Werneck, Elza Miné, Renato Mezan, Leyla Perrone-Moisés, Antonio Arnoni Predo, Betty Mindlin, Olgária Chain Féres Matos, Vera M. Chalmers, Dilma Castelo Branco Diniz, Nádia Battella Gotlib, Sônia Maria van Dijck Lima, Nestor Figueiredo Júnior, Paulo Sérgio Pinheiro, Marcos V. Mazzari, Telê Ancona Lopez, Marcos Antonio de Moraes, Eneida Maria de Souza, Rui Moreira Leite, José de Souza Martins, Aparecida Paiva, Marília Rothier Cardoso, Walnice Nogueira Galvão, Wander Melo Miranda, Ariane Witkowski, Miriam Lifchitz Moreira Leite, Haquira Osakabe e Decio de Almeida Prado. 416 páginas. Preço: R$ 33,50.

mockup