Uma das mais importantes escritoras da literatura infanto-juvenil do País, Tatiana Belinky, 91 anos, não poderia ser mais bem retratada: numa obra infanto-juvenil que conta seus primeiros anos de vida. A ideia do livro ''A Infância de Tatiana Belinky'', que foi lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, partiu da escritora Nereide S. Santa Rosa, uma admiradora de Tatiana desde os tempos em que assistiu à primeira adaptação feita por ela para o ''Sítio do Pica-Pau Amarelo'', na TV Tupi, na década de 50.
''Acho interessante essa relação entre a infância dela e sua produção literária. Procurei resgatar em que meio surgiu essa escritora que é tão querida pelas crianças'', conta Nereide. ''Ela foi uma criança criativa, curiosa, inteligente. Passou pela dificuldade de adaptação quando veio morar aqui, ainda menina. Acredito que isso esteja em sua literatura.''
Nereide dedicou um ano ao projeto. Nesse período, pesquisou sobre a história da autora e fez o que mais lhe agradou: as entrevistas com a própria Tatiana, seu objeto de estudo. ''Fui à casa dela algumas vezes. Ela leu o texto, recomendou uma coisa aqui, outra ali. Mas me deixou muito livre, pois tem respeito em relação à produção de outro escritor'', observa.
Nereide lembra do desejo de Tatiana Belinky, ainda pequena, de ser uma bruxa, para ter o poder de transformar as coisas. Acabou virando bruxa na literatura, fazendo mágica com as palavras. ''Era uma vez uma menina que queria ser bruxa'', escreveu a autora, num início clássico dos contadores de história.
É o começo de uma bela saga narrada de forma simples e saborosa, pensando no público mais jovem, a partir de 9 anos - sem desprezar os eternos leitores de Tatiana. Para Nereide, esses leitores sempre vão se interessar pela história de vida da escritora, que nasceu em 1919, em Petrogrado (hoje São Petersburgo), na Rússia. E recém-chegada ao mundo, já enfrentou seu primeiro desafio: o de sobreviver. Era o período de pós-guerra e as crises respiratórias da bebê Tatiana, causadas por uma combinação de racionamento de alimentos, umidade e frio, fizeram com que os pais se mudassem para a Letônia.
Foi no país de castelos e histórias de cavaleiros, bruxas e duendes que ela deu seus primeiros passos literários. ''Tatiana imaginava um mundo dos medos e dos sustos onde, a qualquer momento, sairia dali a Baba-Yagá, a velha bruxa da floresta, um personagem do folclore europeu'', descreve a autora no livro. Assim, dentro de sua cabeça, foi se formando um mundo cheio de imaginação. Tudo registrado em seu diário, escrito com qualquer uma das mãos - a autora é ambidestra.
Em casa, tudo era motivo para que Tatiana encarnasse personagens, assim como os atores das peças teatrais a que assistia na cidade. Aos 4 anos, aprendeu a ler sem frequentar a escola, brincando com bloquinhos de letras. Depois, veio o ingresso na rígida escola alemã e, aos 10 anos, a mudança com a família para o Brasil. Aqui, a menina, que havia aprendido alemão, russo e letão, venceria a barreira do idioma português, e, mais tarde, se tornaria tradutora e escritora respeitada.
''Achei uma homenagem muito simpática'', diz a própria Tatiana Belinky. Quanto ao público-alvo escolhido por Nereide, ela diz que é suspeita para opinar. ''Esse é meu público'', afirma a escritora, que planeja lançar um livro de crônicas sobre sua vida, provavelmente com o título ''Momentos''.
Serviço
-A infância de Tatiana Belinky
Autora - Nereide S. Santa Rosa
Editora - Callis

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