A VIDA ÁSPERA DE GEORGE GROSZ
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de abril de 2001
Jota De Londrina Especial para Folha2 
O artista alemão George Grosz (1893-1959) é mais conhecido por seus álbuns de desenhos satíricos em que retrata um mundo extremamente cruel. Apesar de ser um pintor reconhecido participou ativamente do Expressionismo e do movimento Dada , sua reputação artística deve-se mais ao talento do desenhista satírico, revelado em séries que se tornaram famosas. Os títulos definem com precisão sua linha de trabalho. O Rosto da Classe Dominante, Ajustaremos Contas são dois dos mais conhecidos. Um terceiro, Ecce Homo, acabou apreendido em 1923 por ofender a moral pública.
Grosz incomodava, era um estorvo para os que desejavam vendar os olhos da população ao horror social e político que desembocaria logo após no fortalecimento da ideologia nazista e na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A autobiografia do artista (Um Pequeno Sim e um Grande Não, Editora Record, 352 páginas, R$ 40), lançada com o atraso o livro é de 1955 que caracteriza nosso mercado editorial, traz, junto com os relatos sobre a vida do artista, elementos cotidianos da Alemanha pré-nazista que ajudam a tornar mais claro aquele importante período histórico.
É bom que se diga que, em sua autobiografia, ele não pretende ser didático e muito menos linear. Não há a intenção de se traçar uma linha regular de compreensão da trajetória do artista e muito menos a catalogação de dados históricos que dêem ao leitor um ordenado painel de época. O próprio autor, já antecipando o tom de extrema franqueza da obra, alerta no prefácio sobre o seu apreço pelo mistério e aversão à análise extremamente fotográfica e nítida, cercada de fatos e documentos.
O descaso de Grosz pela cronologia, entretanto, não diminui em nada o impacto da autobiografia. Isso é compensado pela sua extrema sensibilidade para o mistério e a atenção que concede para cenas insólitas, reveladoras de facetas da história que geralmente passariam desapercebidas mesmo ao estudioso mais aplicado. Em algumas delas, como nas cenas passadas na guerra ele participou como soldado na Primeira Guerra Mundial revela-se um impressionante retrato da estupidez que reinou na Europa no início do século 20. Em um infecto hospital de campanha, onde foi parar com a saúde física e mental destroçada, sua memória fixou a seguinte cena: A cada um de nós faltava algo. A alguns, uma perna, a outro, um olho ou mesmo os dois. A um terceiro, um estômago; a outro, a canela; a outro mais, a memória.
Nessa descida ao inferno o desenhista colheu muitas cenas que usaria depois em seus trabalhos. A característica mordaz de seus desenhos com certeza acabou fortalecida nesta prematura convivência com o horror. A coisa não melhoraria com o final da guerra em 1918 e a humilhação da derrotada Alemanha. De volta a Berlim, o artista passou a testemunhar a ruminação da derrota que vomitaria logo depois a ideologia nazista e consequentemente a Segunda Guerra Mundial.
Logo surgiram grupos pelas ruas gritando Alemanha acorda, o judeu que morra. A conturbada República de Weimar tinha bem vivos seus fantasmas. Desta época saíram os melhores desenhos de George Grosz. As cenas de violência, a convivência da miséria da população com a opulência e a pornografia do burguês, os crimes estúpidos e a violência militar, tudo isso esvaziava os tinteiros do desenhista. À semelhança do espanhol Goya, Grosz utilizou em sua arte a matéria-prima de desespero e ódio que o destino colocou à sua frente.
Este estado de desesperança e ceticismo também fortaleceu o movimento Dada, corrente artística da qual Grosz foi um dos mais ilustres membros. Surgido em Zurique, o dadaísmo era a antiarte por excelência, cuja intenção única era o choque e a exploração da falta de sentido das convenções sociais. Na eventualidade desta expressão ter algum significado, ela mostrava uma longa e incubada inquietação, uma insatisfação e o prazer de debochar, diz Grosz. O movimento já trazia a marca de seu niilismo no próprio nome, Dada, encontrado por acaso em um dicionário francês. Era tão radical que desagradava até aos artistas modernos.
Na conturbada Berlim, o dadaísmo adquiriu um caráter político. Sem perder, contudo, sua marca anarquista. Grosz relata com muito humor as aventuras do grupo, do qual tomava parte ativamente. Mas na expressão artística é mais ressaltada em sua obra a marca do Expressionismo, manifestação estética que ocorreu em vários pontos da Europa, entre 1910 e 1920, e que foi especialmente forte na Alemanha.
O clima social que propiciou a ascensão nazista coincidiu com a fase mais criativa de Grosz. São deste período também as melhores páginas de Um pequeno sim e um grande não. O cotidiano daquela Berlim mergulhada em miséria, preconceito e radicalismo político tem tinturas de realismo fantástico nas narrativas do artista. As ruas eram barrancos abandonados, invadidas por assassinos e traficantes de cocaína, ele descreve. Os alemães conviviam com o desemprego e a fome. De cada grupo de cem homens, 80 viviam do auxílio do estado. Na faminta Berlim, era sinal de máximo apreço oferecer alguns cubinhos de açúcar para a visita adoçar o chá.
A marca do trabalho de Grosz vem daí. O desenhista criou retratos satíricos da burguesia insensível se empanturrando de comida e pornografia à beira do abismo de onde a Alemanha já despencava. Em seus papéis também perambula uma massa entristecida de miseráveis. Loucos com seus machados assassinos espreitam através das janelas. Os militares oprimindo uma população indefesa. E os homens mendigando trabalho e vivendo em condições sub-humanas tem dele um olhar de compaixão.
Em sua autobiografia fica claro que os desenhos ferozes eram retratos do natural, apenas com o toque de sátira próprio do artista. Grosz fazia também pinturas à óleo, mas destaca-se em sua obra os desenhos em preto e branco feitos com pena e tinta nanquim e as magníficas aquarelas manchadas com cores fortes. Era um hábil desenhista, com um dos traços mais originais da história da arte.
A bestialidade nazista também contribuiria para a carga forte de seus desenhos. Mas o advento dos grupos de fanáticos dando vivas à Alemanha e pedindo morte aos judeus traziam também uma carga adicional de perigo para o artista. O regime abominava a arte moderna, especialmente aquelas como as de Grosz, com um recado político de esquerda. Foi graças a um premonitório sonho, narrado com detalhes na autobiografia, que ele escapou do pior. No sonho, alguém lhe perguntava aos berros: Por que não vai para os Estados Unidos? O desenhista atendeu ao apelo e imigrou em 1933.
Logo começariam os espancamentos, assassinatos e desaparecimentos de pessoas os nazistas foram a sua procura no antigo atelier. Uma obra de Grosz foi exposta na mostra A Arte Degenerada, organizada pelos nazistas em 1937. Nesta exposição, o nazismo juntou vários pintores modernos, representantes do que o regime chamava de arte judaica, degenerada, bolchevique. O ex-pintor medíocre, Adolf Hitler, sabia que a submissão da arte era imprescindível para seu projeto de poder.
O artista assistiu à barbárie nazista dos Estados Unidos. E esta sua fase rende grandes momentos na autobiografia. Os percalços para penetrar no mercado de arte americano e suas tentativas de colaboração na imprensa são ótimos retratos de um choque de culturas histórico e que permanece até hoje. O utilitarismo da indústria cultural americana e sua incapacidade de acolher a arte independente e não-comercial tem uma análise inteligente e esclarecedora de Grosz, que sofreu o problema na carne.
Um pequeno sim e um grande não traz a carga criativa, irônica e muito aguda dos desenhos de George Groz. A capacidade descritiva e a memória visual são marcantes no texto. Mesmo o leitor que desconhece sua obra se envolverá com as histórias reais porém fantásticas, muito fantásticas de sua vida. Lamenta-se apenas o pequeno número de obras do autor publicadas no livro. Poucas e mal escolhidas, pois não contemplam sua melhor fase. Ao leitor mais exigente, cabe driblar essas deficiências editoriais brasileiras e procurar conhecer mais George Grosz, um artista que produzia conhecimento, consciência e, claro, o imprescindível deleite estético.


