Estevam Avellar/Arquivo Folha‘‘Quem Matou Pixote’’ tem uma sinceridade desconcertante na abordagem de uma morte mais ou menos prenunciadaTragédia premonitória, o assassinato ainda hoje impune do jovem Fernando Ramos da Silva há quase 10 anos, em Diadema (aqui, pela polícia civil), Grande São Paulo, mais precisamente em 25 de agosto de 1987, é uma espécie de sinistro ponto de partida para a escalada nacional da violência contra menores, infratores ou não, durante a última década, e que culminaria oficialmente com a chacina da Candelária.
‘‘Quem Matou Pixote ?’’, filme de José Joffily, narra a via crucis do personagem a partir dos 11 anos de idade. Garoto-revelação no concurso (entre outros 1.300 candidatos) que escolheu o ator para ‘‘Pixote, a Lei do Mais Fraco’’, dirigido por Hector Babenco em 1979, Fernando Ramos da Silva é apanhado e consumido a meio caminho entre uma infância quase miserável e a súbita fama com uma inesperada carreira artística.
Pobre, semi-analfabeto, despreparado e desorientado, Fernando é logo tragado pela massacrante estrutura televisiva - sua participação na novela global ‘‘O Amor é Nosso’’, ao lado de Tonia Carrero e Walmor Chagas, é desastrosa, e sua incursão ao cinema é interrompida logo depois de rápidas aparições em ‘‘Eles não Usam Black Tie’’ (Leon Hirszman, 1980) e ‘‘Gabriela, Cravo e Canela’’ (Bruno Barreto, 1982). ’’
‘‘Quem Matou Pixote ?’’ se detém sobre o personagem a partir deste momento, do day after trágico na vida desse menino apaixonado por cinema e James Dean. Não faz muito sentido e nem tem muita utilidade prática dizer que o filme é o melhor da carreira de José Joffily, até o momento com cinco curtas e três longas. Importa é ressaltar que, nesta safra recente de recuperação, ‘‘Quem Matou Pixote ?’’ situa-se no mesmo nível de qualidade de ‘‘Terra Estrangeira’’, de Walter Salles, e muitos furos acima de ‘‘Carlota Joaquina’’, de Carla Camurati, ou de ‘‘O Quatrilho’’, de Fábio Barreto.
É uma localização privilegiada. E a produção mereceu todos os sete prêmios obtidos em Gramado-96, inclusive o de melhor filme (júris oficial e popular, melhor roteiro e melhores ator e atriz).
Carreira criminosaA partir da rejeição pela comunidade artística, Fernando direciona sua existência para uma carreira criminosa. Vira assaltante de carros, numa espécie de quadrilha em família - seus irmãos Paulo e Valdemar foram encontrados mortos a tiros, o primeiro em 87 e o outro em 90. Um terceiro, Valdenir, e um quarto, Ronald, foram presos por assalto.
Esta sua nova e não desejada profissão é que vai levá-lo à morte atingido por oito balas disparadas por três policiais civis. Processados e julgados, foram condenados a seis anos de prisão. Apelaram da sentença em liberdade, e em 1995 a pena foi reduzida para menos de dois anos. Com a nova decisão, a pena tornou-se prescrita e os assassinos ficaram livres da prisão.
Para Joffily e para o espectador, a resposta à pergunta-título é transparente. O policial aperta o gatilho, mas a morte fica debitada à estrutura social injusta que sempre penaliza inocentes e desvalidos. Parece lugar comum ou modismo para uso eventual e descompromissado. Não é. O filme tem uma sinceridade desconcertante na abordagem da uma morte que é mais ou menos prenunciada.
A engrenagem - outro chavão, aqui reciclado - que incentiva e movimenta a delinquência de Fernando-Pixote é aquela mesma nossa velha conhecida, e que apareceu com forte acento latino-americano nos filmes da mesma mostra gramadense que reconheceu e recompensou os méritos de ‘‘Quem Matou Pixote ?’’.
Mas sem muito esforço pode-se também atribuir boa parte da responsabilidade pela execução de Fernando a uma certa atitude de quem prega a solução radical do extermínio, aqueles que confessam entre quatro paredes, em família, à mesa do jantar, que ‘‘só matando...’’
Rito interrompidoEm ‘‘Quem Matou Pixote?’’, o único rito de passagem possível para o personagem é o de uma infância infeliz para uma adolescência criminosa, e desta para a morte, sem direito à escala na vida adulta. Baseado nos livros ‘‘Pixote, A Lei do Mais Fraco’’, do jornalista e escritor José Louzeiro, ‘‘Pixote, Nunca Mais’’, de Cida Venâncio Silva, mulher de Fernando Ramos da Silva, o roteiro de Joffily e Paulo Halm focaliza com muita sensibilidade e emoção - às vezes com uma tendência over - esta existência-pesadelo dos que sonham, tentam e não conseguem, num país socialmente polarizado como o Brasil.
E esta polarização não é apenas social, mas na mesma medida cultural. Pois um dos ‘‘crimes’’ de Fernando foi ousar ser aspirante a artista numa sociedade em que produção e fruição da arte e da cultura são monopólio de uma casta minoritária e elitista. Apesar do forte colorido nacional, a saga de Fernando poderia acontecer também na periferia pobre de qualquer grande cidade de qualquer país do mundo, em qualquer lugar onde as portas ficam fechadas para os que não têm.
Munido de uma estrutura dramática convencional mas extremamente eficiente, ‘‘Quem Matou Pixote?’’ consegue ao mesmo tempo ser um tradicional filme policial de fórmula, um ‘‘thriller’’ bem narrado e uma denúncia de forte conotação social. O resultado final é um filme duro e cruel. Triste vocação para o cinema, a de Diadema.

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