A vez dos novos
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2002
Francelino França Reportagem Local 
Tem marinheiro de primeira viagem na área cultural em Londrina. Dos 142 projetos aprovados em 2002, 105 levaram assinatura de empreendedores principiantes. Isso não significa necessariamente que sejam empreendedores culturais inexperientes. Muitos atuavam isoladamente, invisíveis aos olhos da renúncia fiscal, e agora inauguram uma outra fase na produção cultural.
São projetos em todas as áreas, abrangendo desde a cultura integrada e popular, música, teatro até a área de patrimônio, que devem horizontalizar o panorama cultural londrinense. Esse é o caso do projeto Boi da União, que pretende envolver 200 pessoas e atingir uma comunidade de 15 mil pessoas, no Jardim União da Vitória (Zona Sul), um dos setores mais articulados social e politicamente da cidade. A arte-educadora Mara Cristina Pitta, integrante do Grupo Retalho de Cultura Popular, quer inserir a festa do Bumba Meu Boi no calendário londrinense. Esse projeto visa a formação em várias áreas (música, teatro, dança, artes plásticas e artesanato) para a realização da festa em junho.
Agora na fase de captação Mara Pitta constata: Os pequenos empresários desconhecem a Lei de Incentivo. E temos também que trabalhar o fator confiabilidade. Na Caixa Econômica Federal, a arte-educadora verificou o desconhecimento do bancário sobre os mecanismos da Lei, que precisou se informar na Secretaria de Cultura.
Outro setor interdisciplinar envolvendo música e artes cênicas traz a montagem do musical Ópera do Malandro. Cristina Tonin concebeu uma adaptação da obra-prima de Chico Buarque e contará com 16 pessoas entre músicos, atores e técnicos. Cristina vem acalentando a idéia de montar um musical do gênio de olhos verdes há muito tempo. Todo ano produz informalmente uma adaptação diferente da obra de Chico Buarque. Agora, levará aos palcos um empreendimento de maior envergadura, mas restringido pelo alto custo da montagem integral. A proposta inicial ficou orçada em R$ 24 mil e houve um corte de 32% na verba da Lei. Vamos trabalhar com cachês simbólicos, ensaiando durante seis meses, explica Cristina Tonin.
Como marinheiro de primeira viagem, o principal obstáculo enfrentado foi o desconhecimento de como funcionava o mecanismo de arrecadação do município. Às vezes, quando estou conversando com um empresário surgem dúvidas, revela. De porta em porta, Cristina Tonin ficou impressionada com o nível de conhecimento da Lei Municipal de Incentivo à Cultura nas grandes empresas, e também de pessoas físicas. Algumas empresas de grande porte já receberam perto de 40 projetos para análise. Ópera do Malandro será adaptada por Paulo Briguet e tem estréia prevista para o mês de outubro. Duas apresentações ao ar livre (Zerão e Concha Acústica) constam na contrapartida social do projeto.
Londrina na rota de shows internacionais já é uma realidade. A empresa Madame X, do empreendedor Eduardo Martins, há quatro anos vem agitando o meio musical com grupos pop rock de outras paragens. No ano passado, a trupe gerenciou o Cabaret do Filo, que trouxe entre outras atrações Tom Zé e Naná Vasconcelos. Marcaram presença em Londrina grifes como Super Chunk e Fulgazi (EUA) e Buzzcoks (Inglaterra). Inseridos nos projetos desse ano figuram nomes como Stereolab, Superchunk, Sthefen Malkuns e Guided by Voices. Londrina possui público para esse perfil de shows. Com o fomento da Lei de Incentivo podemos maximizar o uso do projeto, pondera Eduardo Martins. O maior obstáculo, no entanto, se refere à falta de espaços adequados para a realização dos shows. Os já utilizados pelo Madame X se transformaram em igrejas evangélicas. A falta de espaços é uma dificuldade a enfrentar, constata. Apesar de não possuir experiência na arrecadação, Eduardo Martins já iniciou os contatos e está tranquilo em relação a esse tópico.
Outro projeto de importância no cenário cultural desse ano resgata o show Na Boca do Bode, espetáculo histórico que aconteceu em março de 1973. No evento, Arrigo Barnabé e Itamar Assunção deram start ao que seria posteriormente denominado vanguarda paulista. Fábio Giorgio, um dos empreededores do projeto, pretende recuperar do fio da história o germe inicial que surgiu em Londrina e depois eclodiu em São Paulo nos anos 80. O documentário Londrina/SP: Entidades Musicais em Trânsito será captado em câmera digital, terá 56 minutos e deve estrear no Festival de Música de 2002.
O produtor cultural pretende iniciar nos próximos dias as filmagens, concomitante à captação. De São Paulo, por telefone, Fábio Giorgio ressalta que o projeto dará visibilidade ao um dos mais significativos momentos musicais no Brasil, após a Tropicália. A verba é deficitária para o projeto, mas o intuito é abrir caminhos. Quem sabe para uma Lei Federal, vislumbra o produtor cultural.


