A vez dos 'manos da periferia'
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de junho de 2002
Fabiana Mettrau<BR>TV Press 
Um seriado teen mostrando a realidade de classes menos favorecidas é o próximo projeto que o cantor Netinho de Paula deve estrear em agosto, na Record
O cantor Netinho de Paula não se cansa de falar sobre a sua origem humilde e de tudo que teve de enfrentar até fazer sucesso como cantor. E, na tentativa de agradecer por tudo o que conquistou, o apresentador do Domingo da Gente, da Record, faz questão de arrumar uma brecha em sua agenda de shows e gravações de tevê para ajudar os manos da periferia. O próximo projeto social de Netinho vai ser a estréia de Turma do Gueto, que ele próprio idealizou para a emissora. O seriado vai mostrar a realidade das classes menos favorecidas de São Paulo a partir do dia-a-dia de uma turma de estudantes. Eu me inspirei nos seriados Sandy e Júnior e Malhação, da Globo, porque eles são uma boa forma de se comunicar com os jovens. Só que lá eles se comunicam com os ricos e nós vamos nos comunicar com os pobres, alfineta Netinho.
Segundo o próprio apresentador, a vontade de retratar a vida da periferia vem bem a calhar na atual fase da tevê brasileira. A tevê tem de estar à frente do povo. Tem de educar e estar num nível acima do de quem assiste. O que está acontecendo é justamente o contrário e isso me preocupa, analisa. Para ele, o novo programa pode ajudar também a acabar com o protecionismo étnico que toma conta de boa parte da teledramaturgia nacional. Não sou tendencioso. Acredito que todos nós, orientais, negros e brancos, têm de ter o mesmo espaço na tevê e em outras profissões também, defende.
O seriado teen da Record vai ser produzido pela independente Casablanca e vai recrutar não só atores negros mas também atores de outras raças. As pessoas acham que todo pobre é negro. Quero acabar com essa imagem. A periferia tem tanto brancos quanto negros, discursa. Até agora, porém, o único ator escalado é negro. O próprio Netinho vai viver o estudante Edson no seriado que vai ter uma escola da rede pública como principal cenário. Aluno do primeiro ano do ensino médio, Edson trabalha em uma gráfica para ajudar a família e namora Ester, sua colega na escola. Além disso, ele tem como melhor amigo uma figuraça chamada Talento. A idéia é fazer uma crítica ao sistema educacional do país, que está se esquecendo do jovem pobre. Quero mostrar as diferenças entre as escolas públicas e as particulares, explica o cantor.
Mas nem só de lições politicamente corretas vive a cartilha do Turma do Gueto. O seriado vai contar também com a descontração trazida pela participação de grupos musicais. Para os primeiros capítulos, Netinho já confirmou as presenças de Waguinho, Compadre Washington e do grupo Fat Family. São pessoas que lutaram muito para chegar onde estão. Todos começaram a carreira passando por dificuldades e conseguiram um grande resgate da autoestima, discorre Netinho. O cantor Belo, detido por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas, também já tinha confirmado presença.
A exemplo dos seriados da Globo, o programa do cantor também promete ser uma porta de entrada para novos talentos artísticos. O diretor Pedro Siaretta já saiu à procura de candidatos ao estrelato nas tradicionais agências de modelos de São Paulo. Estamos na fase de selecionar o elenco, mas os testes ainda nem começaram, explica o diretor.
Apesar da idéia do seriado estar bem delineada na imaginação de Netinho, a equipe de produção ainda não tem muitos detalhes sobre o formato do Turma do Gueto, como a eventual gravação de externas ou a elaboração de uma trilha sonora. Só se sabe que o programa vai ter histórias com início, meio e fim escritas por Laura Malim. A autora é responsável pelos primeiros 26 episódios, com uma hora de duração, que têm previsão de ir ao ar todas as quintas-feiras, às 22 horas. Se depender da vontade dos envolvidos no projeto, a primeira história deve ser exibida já no mês de agosto.
Depois que o seriado estrear na Record, o diretor planeja ir mais longe e, quem sabe, transformá-lo em DVD e num longa-metragem. Além disso, para divulgar os cantores que derem uma palinha no programa, Pedro pretende gravar as participações musicais em um CD. O projeto é ambicioso, orgulha-se o diretor.


