A vez dos independentes
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 1997
Edinelson Alves Correspondente 
Arquivo folhaMIAMI - Assim que saíram as indicações para o Oscar, na madrugada de 11 de fevereiro, a maior surpresa foi Madonna e seu Evita terem ficado de fora da lista. Baixada a poeira, os diretores dos grandes estúdios agora passam a criticar e a questionar abertamente os critérios da eleição do Oscar. Afinal, os grandes estúdios lançaram 163 filmes no ano passado e apenas um deles, Jerry Maguire - A Grande Virada, com Tom Cruise, foi indicado para concorrer ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências de Hollywood.
Como os filmes que receberam o maior número de indicações são classificados como independentes, os executivos dos estúdios acusam que a escolha dos cinco mil membros da academia foi praticamente exclusiva. Ou seja, deram total preferência aos independentes e ignoraram as grandes produções das companhias tradicionais. Conforme a votação da academia, os grandes favoritos são:O Paciente Inglês, de Anthony Minghella, com 12 indicações; e Fargo , de Joel Cohen e Shine, de Scott Hiccs, ambos com sete indicações cada. Como esses três filmes são independentes, as produções das grandes companhias perderam de goleada.
Independente é chique O que mais tem esbravejado com essa situação é o presidente da Fox Film Entertainment, William Mechanic:Eu me ofendo com isso, me ofendo com esta imagem de que os executivos de estúdios são grosseiros e palermas e não conseguem se levantar de manhã sem dar nó errado em seu cadarço. É chique dizer que se é independente. É chique para a Miramax (que realizou O Paciente Inglês) dizer que é independente quando ela é de propriedade da Disney. Se um estúdio fizesse os mesmos filmes, teria sido morto, desabafou ao jornal The New York Times.
O executivo da Fox não criticou a escolha do O Paciente Inglês por acaso. Além de produzir The Crucible, Courage Under Fire e Romeu e Julieta de Shakespeare, O Paciente Inglês também foi oferecido à Fox, mas alegando problemas de orçamento e elenco, a companhia acabou descartando o filme mais indicado ao Oscar.
William Mechanic, no entanto, disse que se a Fox tivesse ficado com O Paciente Inglês a repercussão teria sido outra.Os críticos certamente teriam dito: O que eles estão fazendo com isso? É tudo muito estranho.
Joe Roth, presidente da Walt Disney Studios, concorda com as críticas do executivo da Fox.O que é pouco vil da parte dos independentes é quando dizem que os estúdios não se importam com qualidade, que os estúdios são estúpidos e não sabem a diferença entre um roteiro de boa qualidade e um roteiro de má qualidade. Isso é superficial e não é verdadeiro, reforça Roth.
O presidente da Disney argumenta o seguinte:O foco de nossa atenção tem de estar com a tendência geral. O tamanho dessas empresas, a quantidade de dinheiro que se gasta para fazer e distribuir um filme, nossa política de distribuir esses filmes em todo o mundo - com a quantidade de funcionários que temos - coloca todo o peso de nossa atenção em fazer filmes que sejam acessíveis ao maior número possível de pessoas.
Para John Ptak, veterano agente da Creative Artists Agency, os grandes estúdios perdem terreno justamente porque priorizam o lado comercial. Com isso, gastam verdadeiras fortunas investindo no espetáculo, enquanto os chamados independentes (alguns realmente pertencem a conglomerados) acabam explorando dramas de personagens mais profundos e de temas mais provocativos. Não é que todos os filmes independentes sejam bons. A questão é os que estúdios os deixaram soltos e não estão mais cobrindo esse território, compara Ptak.
Bilheteria é prioridade Curiosamente, o grande drama dos executivos dos estúdios é que eles trabalham com orçamento, às vezes, superior a US$ 60 milhões. Com tanto dinheiro na parada eles não podem errar. Ou seja, produzir filmes que não rendam boa bilheteria pode significar a perda do emprego e a consequente queda de prestígio no meio da indústria cinematográfica.
Um outro dilema para as grandes companhias é a necessidade de satisfazer o gosto do mercado externo, que dá maior preferência a filmes de ação e ao uso de alta tecnologia. À medida que cresce o mercado de filmes produzidos para serem comercializados em loja ou explorar parques temáticos, mais ainda contribui para o declínio da arte. Os grandes estúdios, como a Universal, gastam milhões de dólares em filmes como Daylight (US$ 70 milhões) e Dantes Peak (cerca de US$ 100 milhões) na certeza de que eles trarão grande retorno, mas não têm interesse de bancar filmes como Shine, de US$ 4 milhões.
Na briga entre os poderosos estúdios e a Academia de Artes e Ciência que optou maciçamente pelas produções classificadas como independentes, abriu-se um importamente momento de reflexão crítica que, passados os primeiros momentos de fúria, poderão mexer um pouco com a cabeça dos executivos das grandes companhias. Isso poderá influir nas próximas produções. Não que os estúdios vão dar o braço a torcer, mas é que eles bem sabem que não ser sequer indicado para o Oscar pode representar um grande prejuízo financeiro. Afinal, as indicações ao Oscar sempre são usadas para vender o conceito entre o bom e o mau filme.


