A vez de Chico na Mangueira
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quarta-feira, 06 de agosto de 1997
Silvio Barsetti Agência Estado 
ReproduçãoChico Buarque: homenagem da Mangueira rendeu polêmica na própria escolaA Estação Primeira de Mangueira buscou mais uma vez na música popular a inspiração para quebrar o jejum de 10 anos sem título no carnaval carioca. Em 1998, a escola de samba desfilará com um enredo sobre Chico Buarque, mantendo a tradição de homenagear personalidades vivas, como fez com Braguinha, Tom Jobim, Carlos Drummond de Andrade e os Doces Bárbaros. A escolha de Buarque, no entanto, dividiu a Verde-e-Rosa. A Velha Guarda e compositores tradicionais preferiam que a escola voltasse os olhos para o próprio Morro da Mangueira.
O compositor Ivo Meirelles, campeão em 1986 com um samba sobre Dorival Caymmi, faz elogios a Chico Buarque, mas teme que a Mangueira perca a originalidade que foi uma das marcas da escola em 67 anos de existência. O Chico é adorável, mas o Carlos Cachaça é o único fundador da escola vivo e nunca foi lembrado por nós, declarou. Em 1987, a Mangueira chegou ao bicampeonato com O Reino das Palavras, um registro emocionante da vida e obra de Carlos Drummond de Andrade. Mas, a partir de então, suas homenagens foram encaradas pela crítica e pelo público como cansativas e repetitivas.
Prova disso foi a 11ª posição em 1994, quando reuniu Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso para comemorar 25 anos de Tropicália. Por pouco, a Mangueira não foi rebaixada. Anos antes, em 1989, amargara o 9º lugar ao inventar um enredo no mínimo constrangedor para seus componentes - o desfile foi centrado na história do empresário de casas noturnas Chico Recarey. O Jamelão (intérprete de samba) e o Nelson Sargento são outros dois grandes nomes da Mangueira que poderiam estar na lista dos ilustres homenageados, comentou Elton Santos, o Neguinho, outro compositor da Mangueira.
DisputaA direção da escola se defende. Nélio Rocha, diretor de harmonia, argumenta que a opção por Chico Buarque fez despertar entre os compositores da Verde-e-Rosa uma disputa sadia pelo melhor samba. Na verdade, nada menos que 65 letras foram inscritas, um recorde da Mangueira. Na semana passada, para o primeiro ensaio oficial visando ao desfile de 1998, os atletas da Vila Olímpica da Mangueira fizeram uma festa de arromba na quadra da escola. Todo mangueirense está vestindo a camisa do Chico Buarque, mas sabemos o valor dos nossos mestres Cachaça, Sargento e Jamelão, afirmou Rocha.
Jamelão, ou José Bispo, de 81 anos, dono da voz mais conhecida do carnaval brasileiro, tentou ficar alheio à polêmica, mas deixou escapar que não sabe se vai estar na Marques de Sapucaí para cantar a homenagem a Chico Buarque. Eu nem sei o que vou comer amanhã, disse. Embora reticente, Jamelão inscreveu um samba com outros três compositores mangueirenses e deve estar entre os finalistas. Queria mesmo que me esquecessem, completou, sem ser convincente.
O cantor e compositor Chico Buarque visitou a escola, ficou emocionado com a homenagem e garantiu que desfilará junto com outros nomes da MPB.


