A VEZ DAS OBRAS-PRIMAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de junho de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina 
A distribuidora paulista Cult Filmes (www.cultfilmes.com.br) tem se tornado a salvação dos amantes da sétima arte. Após ter lançado Antes Da Revolução de Bernardo Bertolucci e cópias remasterizadas de Morangos Silvestres de Ingmar Bergman, Asas do Desejo de Win Wenders e Arquitetura da Destruição de Peter Cohen, ela oferece aos cinéfilos duas obras fundamentais na história do cinema - A Regra do Jogo de Jean Renoir e a versão original de Rocco e Seus Irmãos de Luchino Visconti.
La RSgle du Jeu (1939, 113 minutos), considerada por François Truffaut a sublimação máxima do amor, traz as características que tornaram Renoir (1894-1979) o maior cineasta da história da França. Bonachão, irrequieto, de cultura irrestrita era o filho mais novo do pintor impressionista Auguste Renoir, circulando entre os grandes artistas parisienses da época tinha um estilo narrativo extremamente simples, seguindo as fórmulas do humor do teatro de vaudeville, que, por sua vez, era influenciado pela comedia dellarte dos italianos.
Renoir incluía ainda em sua narrativa um humanismo despojado, muito diferente das pretensões politicamente corretas que predominam na produção contemporânea. Seu olhar sobre o humano era verdadeiro, incisivo, sem concessões. Daí sua visão sobre as relações amorosas ao longo de um fim de semana no castelo do marquês de La Chesnaye ser tão seminal, enxuta, essencial.
Com um elenco brilhante, formado por grandes astros do teatro francês da época Marcel Dalio, Nora Grégor, Mila Parély, Roland Toutain, Julien Carette, Paulette Dubost e Gaston Modot Renoir criou uma trupe de aristocratas e empregados que invariavelmente são confrontados com as regras sociais e o desejo de subvertê-las. O símbolo exato deste paradoxo humano é representado pelo personagem Octave, interpretado pelo próprio Renoir. Octave é inteligente, intempestivo, inconstante e doce. Uma espécie de cupido moderno que resolve os anseios afetivos de todos em sua volta, ignorando apenas a sua própria aflição.
Dizer que este ensaio de Renoir sobre o amor é uma obra máxima, já se configura como uma redundância, pois acreditem, se é Renoir, é bom! Se quiser conferir, basta ligar o Eurochannel hoje, a partir das 21h30 ou no decorrer da madrugada, às 3 horas. O motivo por este filme permanecer inédito em vídeo por tanto tempo é que mereceria maiores digressões...
Mas não só Renoir é refém de uma inexplicada política mercadológica que impõe ao público consumidor distâncias tão prolongadas de alguns clássicos. O cineasta da elegância, do culto ao belo e ao melodrama, Luchino Visconti (1906-1976) também tinha uma de suas obras essenciais desconhecidas pelo público brasileiro. Entre aspas pois só quem conferiu o lançamento nos cinemas na época pôde assistir a versão que Visconti imaginou para a tragédia de Rocco i Suoi Fratelli (1960), em italiano, em seus 182 minutos originais.
A história de Rocco, Simone, Vincenzo, Ciro e Lucca á os cinco membros da família Parondi e sua mãe, Rosaria, fora lançada no País pela extinta Globo Filmes, em uma versão dublada nos EUA e reduzida a 156 minutos. Ou seja, mutilada sabe-se lá por quê. Agora a Cult traz as vozes autênticas de Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou e Claudia Cardinale, formando um elenco estelar poucas vezes igualado, e preserva o texto integral de um roteiro escrito por Visconti e quatro de seus fiéis colaboradores: Suso Cecchi DAmico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa e Enrico Medioli.
A trama é bem parecida com a realidade brasileira, invertendo-se os pontos cardeais família pobre do sul vai para o norte industrializado de Milão tentar a sorte. Rocco e Simone acabam se apaixonando pela mesma garota, Nadja, de reputação duvidosa. Rocco é o jovem honesto, belo, puro, quase um santo, mas como comenta o irmão mais novo, Ciro na sociedade que os homens criaram, não há mais lugar para santos como ele.
Visconti queria com este filme retratar uma mãe, que ao mesmo tempo em que se sente dona dos próprios filhos, pretende desfrutar das energias dos mesmos, visando libertar-se das necessidades cotidianas, sem levar em conta a diversidade de caráter de seus rapazes, explicou o cineasta a Gaetano Carancini, jornalista italiano que acompanhou as filmagens.
Outras fontes de inspiração para a película foram a Bíblia, Joseph und Seine Bruder de Thomas Mann, o universo literário do escritor Giovanni Testori e o príncipe Liov Mísquim de O Idiota de Dostoyevski o representante mais ilustre da bondade como um fim em si própria, observa Visconti.
Distante do neo-realismo que ele mesmo praticara anos antes com La Terra Trema, o diretor - que já havia militado em outras áreas como a ópera e o teatro - construiu uma obra rica em todos os aspectos. Desde o retrato de uma realidade desajustada, como a dos sulistas pobres que migram para o norte, até a incompletude humana que não aceita as incoerências impostas por um destino nunca explicável.
Uma frase quase última de Rocco define melhor esta incompreensão. Ele se dirige a Vincenzo e indaga: Lembra, Vince? Lembra que o mestre de obras quando começa a construir uma casa joga uma pedra sobre o ombro da primeira pessoa que passa.... Vivamente, Lucca pergunta: Por quê?. Então Rocco completa, olhando com doçura nos olhos de cada um, Porque é preciso um sacrifício para que a casa seja sólida.
Se o leitor não entende por que uma obra como essa permaneceu inédita em sua versão original até poucos dias, é por que o bom senso não regula o nosso livre mercado, como deveria fazer. Como explicar que filmes de Glauber Rocha, Mario Peixoto, Nelson Pereira dos Santos e Humberto Mauro não sejam encontrados nas locadoras? Seria o mesmo de não encontrar Machado de Assis e Fernando Pessoa em nossas bibliotecas, não? Ao menos ainda existem distribuidoras como a Cult e a Continental que corrigem essa falha no sistema. Ao menos...


