A vez da experiência
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de agosto de 2011
Márcio Maio <br> TV Press 
Foi-se o tempo em que a maturidade era considerada um fantasma para atrizes acostumadas com a condição de heroínas das tramas. Mais ativas - e desejáveis - do que antigamente, é cada vez mais comum que atrizes mais velhas ocupem o posto de protagonistas. Em ''Fina Estampa'', que estreia no próximo dia 22, na Globo, Lília Cabral encarna a sofrida Griselda, mãe de três filhos e avó de um menino. Assim como Susana Vieira que, em ''Senhora do Destino'', contou a saga da retirante Maria do Carmo, que teve uma filha roubada assim que chegou ao Rio de Janeiro.
A valorização da meia-idade já acontece há algum tempo. Em 1995, a Band exibiu ''A Idade da Loba'', novela protagonizada por Betty Faria e que contava a história de uma mulher que tentava se reerguer pessoal e profissionalmente após a morte do marido. ''Quando a gente escreve sobre alguém mais velho, dá para trabalhar questões mais densas e amplas. A vivência conta muito na hora de pensar nos rumos que cada um pode tomar dentro de uma construção dramatúrgica'', avalia Aguinaldo Silva, autor da próxima novela das nove da Globo.
E, de fato, os números do Ibope mostram que explorar os dramas e a rotina de uma mulher madura pode ser vantajoso. Tanto que várias das novelas de maior audiência tinham atrizes experientes como protagonistas. Caso, por exemplo, de ''Roque Santeiro'', ''Tieta'', ''Rainha da Sucata'', ''Pedra Sobre Pedra'', ''Vale Tudo'', ''Senhora do Destino'' e ''A Próxima Vítima''. Os fatores que propiciam o amadurecimento das personagens principais são bastante variados. Entre eles, a própria vontade dos autores em trabalhar com seu elenco preferido. Caso, por exemplo, de Manoel Carlos, que determina a idade de cada Helena de suas novelas de acordo com a intérprete desejada. ''Quando penso na história, penso imediatamente em uma atriz para fazer o papel. Depois, vou batalhar para escrever'', explica o autor.
Manoel Carlos, aliás, já escolheu a própria Lília Cabral, que hoje protagoniza a nova novela de Aguinaldo Silva, como sua próxima Helena. Um posto que a atriz, por enquanto, prefere não comentar. ''Depois, vamos conversar sobre isso. Primeiro, deixa eu ver como vai ser a antagonista dessa Helena'', brinca a atriz, que já encarnou três antagonistas das heroínas principais de Manoel Carlos. A primeira, em ''História de Amor'', em 1995. E, depois, mais recentemente, em ''Páginas da Vida'' e ''Viver a Vida''.
Há quem defenda que as atrizes não têm idade. Talvez por isso algumas consigam convencer em papéis tão distantes de sua realidade etária. Irene Ravache, por exemplo, experimentou em ''Éramos Seis'', no SBT, em 1994, viver a mesma personagem durante três décadas distintas da história. Aos 50 anos, a atriz interpretou a batalhadora dona Lola do romance de Maria José Dupré desde os 20 e poucos até seus 60. E ganhou o prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte e também o Troféu Imprensa na mesma categoria. ''Hoje estou bem melhor do que me deixaram para fazer a novela em sua fase final'', analisa a atriz, que completou 67 anos no último dia 6.
De acordo com Alcides Nogueira, autor responsável pelo ''remake'' de ''O Astro'', na Globo, personagens como dona Lola eram chamados, antigamente, de ''damas centrais''. ''Esse termo saiu de moda, mas é um conceito que continua refletindo a ideia de que uma atriz mais madura é sempre um pilar na trama'', defende ele, que conta com Carolina Ferraz, de 43 anos, na pele da heroína Amanda de sua adaptação. E, contrariando uma trajetória de inúmeras mocinhas - inclusive as de meia-idade -, com Regina Duarte vivendo a desajustada Clô. A atriz, aliás, é uma das maiores colecionadoras de mocinhas maduras da televisão brasileira, incluindo ''Vale Tudo'', reprisada com grande êxito pelo canal a cabo Viva. ''Envelhecer não é fácil, mas a gente tem de enfrentar. E os anos a mais nos trazem maturidade suficiente para entender melhor certos questionamentos'', filosofa Regina.
É inegável que a aparência jovial de atrizes mais experientes é um fator determinante na hora de serem escaladas para interpretarem heroínas de novelas. Mas, se algum detalhe trouxer insegurança para a intérprete, há alternativas para diminuir o risco de não convencer em cena. Irene Ravache, por exemplo, decidiu se submeter a uma cirurgia plástica - a única que fez até hoje - antes de começar a gravar ''Éramos Seis''. ''Como eu já estava com 50 anos e iria interpretar a personagem desde os 20 e poucos, achei que seria melhor fazer um pequeno ajuste no pescoço. Mas era algo que eu pensava em fazer em uns dois ou três anos e, com essa oportunidade, optei por antecipar'', lembra.
Já outras atrizes não escondem os cuidados que tomam para parecerem sempre mais jovens. Não necessariamente para um personagem, mas para a vida de maneira geral. Carolina Ferraz, por exemplo, que é considerada uma das atrizes mais bonitas de sua geração, interpreta aos 43 uma personagem que, na trama, aparenta ter quase dez a menos. ''No fundo, a gente sempre quer estar bem. Não me importo em interpretar mulheres da minha idade e até mais velhas, como já fiz em 'Estrela Guia'. Sou atriz e me preparei para isso. Mas envelhecer no vídeo é mais fácil do que o contrário'', opina a atriz.


