A versatilidade em cena
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de junho de 2002
Katia Michelle<BR>Equipe da Folha 
Curitiba - O cantor, compositor e escritor gaúcho Vitor Ramil faz única apresentação hoje, no Guairinha, em Curitiba. Ele mostra o repertório do seu sexto disco Tambong. Um dos destaques do CD e do show é a canção sobre o poema de Paulo Leminski, O velho Leon e Natália em Coyoacan. O repertório ainda inclui uma composição feita a partir da tradução de um poema de Allen Ginsberg (Para Lindsay) e duas versões para músicas de Bob Dylan, além de antigos sucessos como Estrela, Estrela.
Ramil vem acompanhado dos músicos Santiago Vasquez (percussão), André Gomes (pícolo, bass e sitar) e Roger Scarton (harmonium e guitarra).Tambong é o primeiro disco da carreira do músico produzido para o mercado internacional. Traz participações especiais de Egberto Gismonti, Lenine, Chico César, João Barone e Pedro Aznar. O CD foi lançado em versões em português e espanhol e é resultado de mais de cinco anos de apresentações regulares na Argentina.
Gravado em Buenos Aires, sob a produção de Pedro Aznar, e lançado em setembro de 2000, o resultado final de seu mais recente disco é a confirmação da idéia de estar no centro de uma outra história, com as linguagens de Brasil, Argentina e Uruguai em suas 14 canções, mescladas à brasilidade de Vitor Ramil. O disco acompanha a edição do songbook de Vitor Ramil, volume 1, dedicado a Ramilonga e Tambong . O livro traz não só a transcrição de melodias e harmonias, mas também de todos os arranjos, além de um texto do compositor sobre a estética do frio.
Não estou à margem de uma história, mas no centro de outra, diz Vitor, que preferiu trocar o eixo Rio-São Paulo pelo extremo Sul, afastando-se do calor do mercado. Produzindo a partir do que define como estética do frio, ele acredita que o Rio Grande do Sul deve tirar proveito de sua posição geográfica e cultural privilegiada, desse centro estratégico que representa, dessa conexão de platinidade e tropicalidade.
Ramil começou sua carreira artística ainda adolescente, no começo dos anos 80. Aos 18 anos gravou seu primeiro disco Estrela, Estrela, com a presença de músicos e arranjadores que voltaria a encontrar em trabalhos futuros, como Egberto Gismonti, Wagner Tiso e Luis Avellar, além de participações das cantoras Zizi Possi e Tetê Espíndola. Neste período Zizi gravou algumas canções de Vitor, e Gal Costa deu sua versão para Estrela, Estrela no disco Fantasia. Alguns desses sucessos são mostrados no show.
Ramil, aliás, mostra uma carreira mais consolidada, resultado de duas décadas de trabalho. Em 1984 lançou A paixão de V segundo ele próprio. Com um elenco de importantes músicos brasileiros. Este disco experimental e polêmico trouxe 22 canções cuja sonoridade passeava da música medieval ao carnaval de rua, de orquestras completas a instrumentos de brinquedo, da eletrônica ao violão milongueiro. As letras misturam regionalismo, poesia provençal, surrealismo e piadas. Deste disco, a intérprete argentina Mercedes Sosa gravou a milonga Semeadura.
Em 1987, Ramil trocou Porto Alegre, pelo Rio de Janeiro e lançou Tango. Diferente do disco anterior, este era o resultado do trabalho de um grupo pequeno de músicos a partir de um repertório também reduzido. Em oito canções o furor experimental e lúdico de antes cedeu lugar a letras densas e elaboradas de canções que viraram sucessos. O letrista se afirmava e o compositor tornava-se mais sutil, proporcionando aos músicos e grandes improvisadores como Nico Assumpção, Hélio Delmiro, Márcio Montarroyos, Leo Gandelman ou Carlos Bala perfomances marcantes.
Na passagem dos anos 80 para os 90, Vitor afastou-se dos estúdios e passou a dedicar-se ao palco. Foi quando nasceu o personagem Barão de Satolep, um nobre pelotense pálido e corcunda, alter-ego do artista. Dividindo alguns espetáculos com esta figura ao mesmo tempo divertida e mal-humorada, mesclando música, poesia, humor e teatro, Vitor começava a consolidar seu público e a aperfeiçoar sua interpretação.
Neste período não só definiu-se a música e postura do Vitor Ramil dos discos que viriam a ser gravados na segunda metade dos anos 90 como apresentou-se o Vitor Ramil escritor, através da novela Pequod, ficção criada a partir de passagens da infância do autor, de sua relação com o pai, de suas andanças pelo extremo sul do Brasil e pelo Uruguai. A partir do lançamento deste primeiro livro, em 1995, de grande repercussão junto à crítica e atualmente sendo traduzido para o francês, o artista passou a ocupar-se duplamente da música e da literatura. Nessa época, deixou o Rio e voltou a viver no Sul. É quando consolida a sua estética do frio, com o disco Ramilonga. As influências dessa estética também estão presentes no Tambong e podem ser conferidas no show de hoje.
Depois de Curitiba, Vitor Ramil se apresenta em Florianópolis, Porto Alegre, Pelotas e São Paulo. Após a turnê, o artista pretende se dedicar ao projeto de seu segundo livro e no início do ano que vem entra em estúdio para gravar um novo disco.
Serviço: Show de Vitor Ramil, hoje às 21 horas, no Guairinha. Ingressos: R$ 20,00 (desconto de 50% para estudantes)


