Quer saber o que Kurt Cobain pensava do futuro da música no universo tecnológico?
Bom, ele se preocupava mais com a perda do instinto básico do rock. Os garotos fazem música em ''máquinas de realidade virtual'', ele ponderou, e até que isso é bacana, mas a música não tem alma. Vai atender a necessidades de consumo - depois, eles saem para uma festa ou para comer, e a vida não muda. ''Um dia, eles serão encontrados mortos no sofá de uma overdose de realidade virtual'', afirmou.
Essa declaração é uma das muitas reflexões do líder do Nirvana no documentário Kurt Cobain - Retrato de Uma Ausência (About a Son), dirigido por AJ Shnack, que estreia amanhã no HSBC Belas Artes, em São Paulo. O filme tem o próprio cantor como narrador involuntário, a partir de depoimentos que ele deu ao jornalista Michael Azerrad, entre 1992 e 1993.
O filme não traz nem uma música do Nirvana, mas apenas as que emolduram a formação artística do compositor. Não há nem uma imagem de Kurt, e apenas dois pedaços de fotos de Dave e Chris, seus parceiros do Nirvana. Não tem mãe falando, nem pai, nem fãs, nem namoradas antigas, nem ex-patrão, nem detetives particulares brandindo teorias conspiratórias. Não traz também nenhuma revelação picante. Não há picos dramáticos, nem imagens que ajudem a fazer a construção heroica de um mito.
O diretor Shnack tentou compreender a gênese de um artista por meio da geografia na qual ele foi engendrado.
A câmera passeia pelos tipos humanos de Aberdeen, onde Kurt cresceu. Passeia pela serraria onde trabalhava o pai de Kurt. Pelo playground onde brincou. Pelos lugares de onde jogava latas cheias de pedras nos carros da polícia, ainda criança. Cafés, salas de estar, sofás, velhas lojas de discos. A história de Kurt se revela pelos olhos de um velho, pela barba rala de um moleque de high school, pelo mundo adolescente de um lugar invisível.
Kurt Cobain era um desterrado em qualquer lugar que vivesse. O exílio era parte de seu espírito. Quando ele conta sobre sua ida à cidade de Olympia, onde viveu com a namorada de então, Terry, vai-se aclarando o tamanho de sua angústia.
O mais bacana sobre o filme é isto: mostra o tamanho da consciência do músico. O pai o espancava em restaurantes, a mãe comeu seu tablete de maconha, os amigos da escola batiam nele na aula de natação porque achavam que era gay. Em dado momento da vida, ele diz, não faria diferença se tivesse uma casa, ou se dormisse debaixo de uma ponte ou dentro de um carro. Fez isso durante meses.
Ele não usa nenhum de seus percalços como justificativa, apenas conta sua versão da história. O insight musical de Kurt - que sonhava misturar Black Sabbath com Beatles - era sempre rechaçado, mas não o bastante para que desistisse dele.
A trilha é muito bacana: começa com Motorcycle Song, de Arlo Guthrie, e passa por Bad Brains, Vaselines, Butthole Surfers, Scratch Acid, Iggy Pop, Lead Belly, David Bowie.
Kurt demonstra grande senso de humor. Diz que, já banda emergente, ele e os colegas topavam almoçar com executivos de grandes gravadoras, como Capitol, apenas para que lhes pagassem jantares. Não tinha a menor intenção de aceitar suas propostas. Ri e faz rir ao lembrar de como achava que sua mulher, Courtney, se parecia com Nancy Spungen, a groupie de Syd Vicious.
Kurt diz que de repente passou a se dar conta de que o Nirvana tinha virado um emprego. Que tudo que queria na vida era voltar atrás, ao exato momento em que a fama era apenas um bafejo delicado no seu rosto, com uma dúzia de pessoas na plateia. O filme termina com Courtney Love pedindo a Kurt para que ele, quando subir, traga uma mamadeira para a filha. Ele lhe responde docemente que sim. Um ano depois, daria um tiro na cabeça.

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