O jornalista americano Michael Walsh recebeu de Maureen Egen, presidente da Warner Books, uma missão arriscada: escrever um complemento para ‘‘Casablanca’’, um dos mais venerados cult movies do cinema mundial. O resultado foi uma obra tão oportunista quanto dispensável. No livro ‘‘As Time Goes By - Um Romance de Casablanca’’ (336 páginas/R$ 30), lançado pela Editora Record, o escritor perverte sem dó nem piedade o cativante enredo do clássico de Michael Curtiz. O livro transforma o enigmático Rick Blaine, vivido por Humphrey Bogart, num arremedo de cowboy-noir. Já a conflituosa Ilsa Lound, papel de Ingrid Bergman, é convertida em uma romântica descerebrada. Longe da nobreza de colocar a causa ideológica acima de uma grande paixão, como no final do filme original, Rick parece mais interessado em satisfazer os baixos instintos com a sedutora Ilsa. E consegue.
Inspirada no que há de menos inventivo no cinema comercial hollywoodiano, a versão escrita por Walsh - ex-crítico da revista americana Time e professor de Jornalismo na Universidade de Boston - começa exatamente onde termina ‘‘Casablanca’’: com a enigmática caminhada de Rick e do capitão Louis Renault, interpretado por Claude Rains, rumo às brumas do aeroporto de Casablanca. Mas logo Walsh deixa claras suas limitações criativas quando resolve imaginar os acontecimentos que antecedem a trama. O escritor decidiu, por exemplo, que Rick é um ex-gângster do Harlem chamado Yitzik Baline - uma referência vazia e descabida ao músico Isidore Baline, vulgo Irving Berlin.
Este passado de Rick no submundo de Nova York busca explicar por que o pianista Sam, seu melhor amigo, é um negro. Mas se o passado ainda tenta ser vagamente coerente com pistas dadas durante Casablanca, o futuro perpetrado por Walsh para Rick é totalmente estapafúrdio. Envolvido em situações de ação, o outrora sarcástico personagem imortalizado por Bogart empunha o revólver mais do que o aceitável.
Mas o pior é quando Walsh reúne Rick, Ilsa, Laszlo, Sam e Renault para uma inverossímil missão terrorista na Tcheco-Eslováquia. Nesta altura, o livro se transforma num pastiche de vários filmes de ação, como ‘‘Duro de Matar’’, de John McTiernan, ‘‘Chuva Negra’’, de Ridley Scott, e ‘‘Máquina Mortífera’’, de Richard Donner. Para coroar a sequência de heresias, no final de ‘‘As Time Goes By - Um Romance de Casablanca’’ o esvaziado Rick Blaine diz a frase: ‘‘Play it again, Sam.’’ Rick Blaine nunca emitiu esta frase em Casablanca, embora tenha se tornado tão famosa quanto o filme. Assim como milhões de pessoas em todo o mundo, Michael Walsh pode até ter adorado ‘‘Casablanca’’. Mas deveria ter pedido que alguém lhe explicasse o espírito do filme.

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