A verdadeira grande família
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sexta-feira, 16 de maio de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha2 
Cannes e chuva definitivamente não combinam, e por isso o festival tem lugar fixo no calendário encaixado neste período de primavera européia, o evento sempre dourado por um astral solar. Mas nem sempre é possível controlar as divergências climáticas, e assim ontem foi dia de corre-corre, imprecações, aglomerações, superlotações, tornando ainda mais exíguos os espaços coletivos - como se isto ainda fosse possível. E sim, também aqui aparecem do nada os vendedores de guarda-chuvas, a atravancar em dobro as ruas estreitas e o congestionamento transeunte.
Mas a felicidade espantou a manhã carrancuda. ''Un Conte de Noel'', primeiro dos três franceses a entrar na corrida pela Palma de Ouro, é decididamente um concorrente com respeitáveis chances de premiação, mesmo faltando ainda conhecer dois terços dos títulos da mostra competitiva. Este é o fim de semana de ''Linha de Passe'' na programação o novo trabalho de Walter Salles com a co-direção de Daniela Thomas. Quanto à ''Cegueira'', o filme de Fernando Meirelles que abriu o festival não encontrou muita simpatia de boa parte dos jornalistas aqui em Cannes.
''Um Conto de Natal'', filme de Arnaud Desplechin - sua obra anterior, ''Reis e Rainhas'', foi exibido ano passado no Cine Com-Tour/UEL -, é um melodrama familiar. Resumido desta maneira, poderia ser telenovela-folhetim rasa, dessas que passeiam de hora em hora, das seis, sete e das oito. Mas nas mãos de Desplechin o caso muda de figura. Os personagens da dramaturgia familiar são imutáveis: o que muda é o tratamento, a maneira de contar, o acréscimo do imprevisível que só enriquece as relações humanas, abrindo brechas na complexidade para que o espectador se aproxime afetivamente de pessoas que, em primeira (e não última) instancia têm um pouco de cada um de nós.
Nos dias que antecedem o Natal, uma grande família da burguesia de Roubaix, interior da França, se reúne ao redor da mãe, Junon (Catherine Deneuve), condenada por um mal incurável contra o qual somente terá chances se for submetida a um transplante familiar de medula, caso haja compatibilidade. Há duas possibilidades, mas antes que isto ocorra o espectador vai pactuar com um instigante universo confessional e conhecer um rico painel de seres humanos, contraditórios, frágeis.
Humanos, apenas. No trato desta matéria de sensibilidades diversas, Desplechin utiliza um trunfo impensável até então. Ele inverte a ordem dos sentimentos: defende a força positiva dos afetos negativos. Ressentimentos, rancores, ciúmes, disputas pelo poder, tudo enfim que descende desta genealogia complexa é reciclado.
Um elenco irretocável oferece Catherine Deneuve em grande forma, e os atores-fetiche do diretor, Mathieu Amalric (de novo o herói positivo-negativo de ''Reis e Rainhas'') e Emmanuelle Devos, além de Chiara Mastroianni (cada vez mais linda e melhor atriz). Seguiu-se ao filme uma coletiva zen, contrariando a postura via de regra impaciente e até agressiva de Desplechin. Todos muito cordatos, tranquilos e felizes, na mesa e na platéia de jornalistas. Todos com a certeza de estar lidando, de fato, com uma peça de grande cinema. Como aliás convém a Cannes.
O turco Nuri Bilge Ceylan é um realizador com quase uma década de estrada. Muito pouco ou nada conhecido no Brasil. Por três vezes já foi selecionado em Cannes, e nas três mostrou que, além de esteta prodigioso influenciado por criadores como Andrei Tarkovski e Michelangelo Antonioni, ele tem boas histórias para contar, ajudado no roteiro pela mulher, Ebru Ceylan. Este ano seu filme em competição é ''ç Maymun'', ou ''Três Macacos'' - o título refere-se àquela lenda dos três macacos que se recusam a ver, ouvir e falar.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes


