O mundo ocidental tem uma atração secular pelo universo muçulmano, colocando a mulher como protagonista desse fascínio. Dentro do imaginário popular, é comum encontrar homens brincando com a possibilidade de ter prazeres com várias esposas e mulheres estranhando os mistérios escondidos sob o chador e hijab (véu longo e vestido). Também são constantes as conversas sobre como virgindade, poligamia, punição para adúlteros, violência e direitos e deveres das islâmicas.
Essas discussões ganharam um impulso com o atentado aos Estados Unidos. Desde 11 de setembro, as mulheres ocupam espaço na mídia como exemplos das diferenças entre Ocidente e Oriente. As dúvidas sobre a questão feminina aumentaram ainda mais com a telenovela ''O Clone'', da Rede Globo, que tem construído uma concepção do islamismo na cabeça de milhões de telespectadores.
A história líder de audiência chamou atenção, é claro, da comunidade árabe no Brasil, composta por um milhão de pessoas. A colônia, com seu conhecimento ''in loco'' do assunto, ganhou o inevitável status de crítica com maior credibilidade do produto cultural. Nessa posição aparecem as islâmicas residentes em Foz do Iguaçu, cidade com a segunda maior colônia árabe do País, estimada em 12 mil imigrantes e descendentes.
De segunda-feira a sábado, centenas de mulheres, bem como muitos homens, sentam-se diante da televisão dispostas a identificar os acertos e erros de cada capítulo, além de, inevitavelmente, acompanhar o cotidiano dos personagens. A Folha conversou com quatro mulheres na tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) para entender o porquê da imagem estereotipada de submissão, de escravas do marido e até de negação aos prazeres sexuais.
O quarteto se mostrou unânime em apontar a mídia como responsável por essa imagem distorcida, embora reconheça veracidade em alguns aspectos. A impressão de o Islã ser uma religião machista foi renegada. Pelo contrário. A professora Rabha Melhem, 31 anos, foi categórica ao dizer que o ''Al Qur'an (A Leitura), livro sagrado do islamismo, ''trata a mulher como uma jóia muito importante para a vida da família''.
Como justificar então a polícia religiosa da Arábia Saudita que persegue mulheres descobertas e a fiscalização feita pela polícia egípcia sobre as bailarinas de dança do ventre? Como entender a imagem usada pela imprensa como mote: a obrigação de cobrir a cabeça inteira com a burka no Afeganistão, só extinta recentemente com a queda do Taleban? É notório, fatos como esses ajudam a propagar o denominado ''fundamentalismo islâmico''.
Para as muçulmanas, a conversa começa nesse ponto. Essa expressão é usada incorretamente pelo resto do mundo, pois o fundamentalista defende o tradicional e o não o extremo. As ações extremas são fruto das diferenças culturais entre persas, afegãos, africanos, árabes. Mais do que isso. São diferenças políticas de monarcas e revolucionários, que aplicam, em graus variados, os ensinamentos de Allah (Deus) revelados ao profeta Muhammad (Maomé) nos anos de 610 e 632 d.C. e descritos no Alcorão.

mockup