A verdade rindo das aparências
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
"A ficção pode oferecer uma visão de mundo tão sombria quanto desejar, mas para realmente ser muito boa ela precisa encontrar uma maneira de, ao mesmo tempo, retratar o mundo e iluminar as possibilidades de permanecer vivo e humano dentro dele."
Essa afirmação é do escritor norte-americano David Foster Wallace. Um sujeito que cultivava a semente o otimismo e, ao mesmo tempo, optou pelo caminho oposto. Em setembro de 2008, colocou uma corda no pescoço e se enforcou na garagem de sua casa. Tinha 46 anos de idade.
David Fostes Wallace já era um escritor cultuado por seu estilo literário experimental e pelos temas do aqui e agora que trabalhava, mas sua morte deu uma projeção meteórica à sua literatura. Impulsionado pela internet, foi coroado de grande celebridade mundo afora.
Sua primeira biografia, publicada no final de 2012 nos Estados Unidos, elucida as relações entre vida e obra e seu inesperado suicídio. O jornalista D. T. Max, autor de "Every Love Story is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace", defende a tese de que a morte do escritor está vinculada ao fato de ter parado de tomar a medicação contra depressão que o abatia desde a adolescência. Ele começou a acreditar que os remédios estavam atrapalhando sua sensibilidade com as palavras.
Até então pouco publicado no Brasil, David Foster Wallace caiu nas graças dos editores após sua morte. A editora Companhia das Letras, que havia publicado em 2005 o volume de contos "Breves Entrevistas com Homens Hediondos", colocou nas livrarias no final de 2012 "Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo", antologia de ensaios e textos jornalísticos organizada pelo escritor gaúcho Daniel Galera. Para o segundo semestre de 2013 a mesma editora promete lançar o romance "Infinite Jest" (Piada Infinita) considerado sua obra-prima e o mais ousado de seus textos.
"Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo" reúne quatro grandes reportagens e dois pequenos ensaios (sendo um deles, na verdade, o discurso de paraninfo realizado por Foster Wallace em 2005 no Kenyon College, onde era professor).
A pauta seguida pelo escritor para as reportagens consiste de poucas palavras: escrever sobre o que viu em determinado local. Na antologia os lugares correspondem a uma típica feira agropecuária do interior, uma gastronômica festa da lagosta, um cruzeiro marítimo de classe média pelo Caribe e o jogo de tênis entre Federer e Nadal na final de Wimbledon de 2006.
Não se trata de resgate do "new journalism", mas um passo além no "novo jornalismo". O que o escritor (que fazia questão de afirmar que não era jornalista) faz é contar não apenas o que viu, mas como viu aquilo que as coisas revelam além das aparências através de detalhes. Esse processo envolvia ironia, experimentalismo, humor, inteligência, atenção aos detalhes, erudição, gírias, apuro técnico, improvisação, tiradas, densidade, bobagens, críticas, divagações, dados enciclopédicos, tiradas, viagens, leituras filosóficas, notas de rodapé quilométricas etc. Tudo ao mesmo tempo num único texto.
Assim, a feira agropecuária se transforma num circo de horrores. A feira da lagosta numa discussão sobre a crueldade contra os animais. A viagem num cruzeiro se converte num retrato da banalidade suprema de ser paparicado até a morte. O jogo de tênis numa aula de matemática e de sensibilidade. David Foster Wallace, nascido em 1962, traz tudo aquilo que vê e pensa para próximo do leitor dentro de uma lógica inesperada. Não há fronteiras entre escritor e leitor. A experiência da leitura é parte do conteúdo.
Um dos textos mais cultuados do autor presente na antologia, "Isto é Água", é quase um manifesto contra o risco do que ele nomeia como "configuração padrão da vida adulta". Aquilo que faz as pessoas se sentirem mortas em vida. Aquilo que faz as pessoas ficarem presas dentro de suas próprias cabeças, ou presas dentro de seus próprios egos. Um risco complicado de aceitar. E difícil de recusar.
Serviço:
"Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo"
Autor David Foster Wallace
Editora Companhia das Letras
Seleção e prefácio Daniel Galera
Tradução Daniel Pellizzari e Daniel Galera
Páginas 310
Quanto R$ 44,50
Fragmento:
"A tarde se transforma num frisson prolongado de estresse. Encontrões, cotovelos. Mares de carne, Feirantes, todos olhando, ainda comendo. Esses Visitantes da Feira parecem gravitar somente em direção aos lugares lotados, que já possuem filas longas. Sob estresse, parecem crianças perdidas. Mas ninguém perde a paciência. Me ocorre uma ideia adulta e potencialmente crucial. Por que os Visitantes da Feira não se importam com as multidões, as filas, o barulho e por que eu não encontro nem sombra daquela velha sensação especial da Feira como unicamente Para-Mim. Esta Feira Estadual é Para-nós. De uma forma auto-consciente. Não Para-Mim ou Para-Você. A Feira é deliberadamente a respeito das multidões e do empurra-empurra, do barulho e da sobrecarga de visões, odores, escolhas e eventos. Somos Nós nos exibindo para Nós Mesmos."
(Fragmento de "Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo" de David Foster Wallace)


