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A verdade é uma faca. Uma faca de dois gumes, sem cabo. Sua função é cortar tanto o objeto desejado quanto o mão daquele que a utiliza. Um dolorido dilema que o homem contemporâneo não possui a capacidade de resolver.
A verdade é algo absolutamente inacessível. Ela exige daquele que a busca uma disposição praticamente extinta, a disposição de perder os dedos, ou até a mesmo a própria mão. O drama está no fato de que o voluntário que empreende tal aventura, mesmo aceitando a perda dos dedos e das próprias mãos, não alcançará a verdade. No mundo em que vivemos, ela é inacessível. Apesar de todos os esforços, não pode ser alcançada.
O escritor tcheco Franz Kafka (1883 - 1924) deixa isso claro em ‘‘O Castelo’’, romance que acaba de ser publicado pela Editora Companhia das Letras. Trata-se da primeira tradução realizada para o português diretamente do original alemão - diferente da tradução publicada na década de 60, feita a partir do inglês.
Ao lado de ‘‘O Processo’’ (1914) e ‘‘A Metamorfose’’ (1912), ‘‘O Castelo’’ (1922) integra o sólido tripé do chamado ‘‘universo kafkiano’’, que se tornou referência literária nos quatro cantos do mundo. O próprio termo ‘‘kafkiano’’ hoje é uma palavra existente em dicionários de diferentes línguas. É definido, geralmente, da seguinte forma: ‘‘um mundo de opressão e angústia, em que o personagem central, único foco de lucidez, anda em círculos, sem conseguir entender as diretrizes que emanam de um horizonte impenetrável e fixam seu âmbito de ação e seu destino.’’
Em ‘‘O Castelo’’, Kafka apresenta um enredo aparentemente simples com repercussão obsessiva. Uma agrimensor chamado K. chega numa aldeia governada por um ‘‘castelo’’. K foi contratado para realizar trabalhos de agrimensura na região. O personagem é uma pessoa estranha ao local e, ao chegar, não consegue entender nem os governantes (os habitantes do castelo) nem os governados (os habitantes da aldeia).
O castelo é inacessível para K. Sua única forma de contato é realizada através de funcionários do local. Poucos, diga-se de passagem, pois assim como o castelo, a grande maioria dos funcionários também é inacessível. Os habitantes são os únicos que podem oferecer alguma informação, todas vagas e banhadas de medo e dissimulação.
Apesar de contratado como agrimensor, recebe a comunicação que o castelo não necessita dos serviços de agrimensor. Sua presença na aldeia torna-se inexplicável, então se empenha numa busca desesperada no sentido de entender o que está acontecendo, em saber a verdade sobre a situação em que está vivendo.
‘‘O Castelo’’, em toda sua extensão, pode ser descrito como uma interminável busca. Nada pode ser compreendido, nada pode ser explicado, nada se aproxima da verdade. Kafka sugere que o beco sem saída do homem contemporâneo está muito além do céu ou inferno. O beco seria o próprio inferno, aquele que vivemos coletivamente, socialmente.
Na interminável procura de K. em compreender, com todos os esforços, a situação em que está inserido, Kafka demonstra como o entendimento é uma utopia a qual todos as pessoas se agarram, como um procedimento de sobrevivência. O entendimento no sentido de uma construção mental (em alguns casos até mesmo espiritual) para explicar o motivo que nos mantém vivos. Ou, pelo menos, o motivo que nos mantém ocupados enquanto aguardamos a morte.
A impressão é que Kafka, tanto em ‘‘O Castelo’’ como em ‘‘O Processo’’, utiliza a realidade para fazer ficção. Exagerando a realidade, torna a ficção um espelho de alta definição da própria realidade. Um reflexo que encontra eco nas experiências do leitor com a imagem da autoridade moderna. A literatura, neste caso, é a sensação que uma pessoa experimenta diante da necessidade de se relacionar, de forma humilhante, com o poder municipal, estadual, federal ou mundial. A burocracia teria a capacidade de deformar tantos cérebros quando a tortura e a violência.
Se em ‘‘O Processo’’, o escritor demonstra que a burocracia (com suas infindáveis leis) é um torturante mecanismo opressor do mundo contemporâneo, em ‘‘O Castelo’’ vai além. O enaltecimento da figura da autoridade, aquela que comanda a vida de toda uma sociedade de modo dissimulado, no alto de uma torre de cristal, nada mais é que um mecanismo de fabricação do real. Em outras palavras, esse enaltecimento é uma ficção que acreditamos como realidade, seja por mera ingenuidade, por bondade, ou mesmo por uma possível fé na verdade. Mesmo assim, apresenta-se como farsa, pois não possui nenhuma relação de compromisso para com as pessoas que estão sob o estigma da autoridade.
Franz Kafka nasceu numa tradicional família de comerciantes judeus da cidade de Praga. Na infância, após a morte de seus dois irmãos mais velhos, viu sobrecair em suas costas uma enorme responsabilidade social, comum nas famílias judias. Esse peso, ao lado a figura opressiva e autoritária do pai, torturaram Kafka até a medula. O pai não aceitava sua inclinação literária, considerando-o um filho inútil e fracassado. Essa relação problemática é retratada em ‘‘Carta ao Pai’’ (1919), onde o escritor solta todos os cachorros contra a figura paterna. Além do drama familiar, também foi atormentado por dramas de relacionamentos amorosos. Noivo por duas vezes da mesma mulher, nunca conseguiu se casar.
Foram raros os textos que Kafka publicou em vida. Quase a totalidade de sua obra foi publicada postumamente e chegaram a nós graças a uma promessa não cumprida. Quando foi internado com tuberculose no sanatório de Kierling, na Áustria, encarregou seu melhor amigo, Max Brod, um último pedido: dar um fim em todos seus escritos.
Max Brod, jurou perante o leito do amigo que, se ele viesse a morrer no sanatório, queimaria todos seus escritos. Pouco tempo depois, aos 40 anos, em junho de 1924, Kafka faleceu. Brod não cumpriu a promessa, pelo contrário, violou a palavra dada e publicou todos textos inéditos.
Dentro da história da literatura, a obra de Franz Kafka é única. Perturbadora, circular e obsessiva, realiza um indigesto retrato do mundo em que vivemos. Há três anos a Companhia das Letras vem publicando suas obras completas com tradução do professor de literatura Modesto Carone. Dos oito volumes lançados, parte deles já havia sido publicada na década de 80 pela Editora Brasiliense. Outra parte, inédita, começa a ser lançada agora, com ‘‘O Castelo’’ e outro dois volumes que estarão nas livrarias em 2001, ‘‘Narrativas de Espólio’’ e ‘‘O Desaparecido’’ (também conhecido como ‘‘América’’).
Franz Kafka afirmava que, para ele, era necessário escrever na obscuridade: ‘‘Minhas histórias são uma espécie de fechar de olhos.’’ Essa imagem não significa que seu interesse era abster-se da realidade, pelo contrário, ao fechar os olhos para escrever, tinha a oportunidade de apreender a imagem do mundo refletida no espelho interior da percepção. Tinha a oportunidade de descobrir a forma da dor no meio da escuridão, em seu real lugar de origem.
No início do século Kafka deixou claro que a verdade assumiu a forma de algo impossível, inacessível. Hoje, no início de outro século, testemunhamos uma imensa multidão vagando com mãos e dedos intactos. No meio dessa massa, é possível encontrar algumas raras pessoas de olhos tristes. Alguns sem os dedos das mãos, outras sem as próprias mãos. A verdade é uma faca. Uma faca de dois gumes, sem cabo.
‘‘O Castelo’’ de Franz Kafka, Editora Companhia das Letras, tradução e posfácio de Modesto Carone, 488 páginas, R$ 35,00.

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