Um famoso ditado popular diz que rir é o melhor remédio. Mas como ele não vem acompanhado de bula, explicando por exemplo para qual doença ou situação é o melhor medicamento, existe a tendência de aplicá-lo para tudo e todos.
No teatro, por exemplo, o humor se tornou o caminho mais fácil e mais curto para seduzir o público. Uma espécie de argamassa que promove o entrosamento imediato entre palco e platéia. Um elemento que converte espetáculos em divertidas festas do riso.
A companhia carioca Os Fodidos Privilegiados segue essa tendência na comédia ‘‘Tudo no Timing’’ apresentada no Filo 2000. Formado por seis pequenas peças que, cada uma a seu modo, retratam o rio de absurdos que banham a incomunicalibidade humana, a montagem utiliza o humor como componente básico.
Apesar de ser um espetáculo bem-acabado realizado por atores eficientes, ‘‘Tudo no Timing’’ pode ser enquadrado dentro do chamado ‘‘teatro de bobagens’’. Um teatro onde as bobagens, que na cozinha cênica geralmente são utilizadas como condimentos do espetáculo, se transformam no prato principal a ser servido.
Nesse processo culinário o real conteúdo, bem como seu sentido, ficam relegados ao segundo plano. O humor revela-se um fim em si mesmo, não uma determinada linguagem, ou gênero, utilizado como veículo de transmissão de mensagem, de significado. Para acentuar esse quadro, a montagem trabalha com clichês humorísticos, com caricaturas televisivas. Em algumas cenas o espectador tem a impressão de não estar diante de um espetáculo teatral, mas diante de um programa humorístico de televisão - com direito à surrada e antiga fórmula de utilização de canções, ou mesmo paródias musicais, como pontuação cênica.
O texto do escritor norte-americano David Ives, mesmo dentro da adaptação, demonstra possuir em seu interior elementos críticos mais sólidos do que o simples humor imediato. Um desses elementos seria a ironia. Ironia que se potencializa pela utilização de variações sobre um mesmo tema, pela utilização de ferramentas do minimalismo.
Essa ironia latente no texto, seja para com os absurdos das relações pessoais, ou para com a própria condição do homem, é praticamente anulada pelos exageros do humor, minimizando assim, e até mesmo eliminando, seu poder de fogo.

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