Se, nos dias de hoje, praticamente tudo pode entrar na economia de mercado, nada mais natural do que a sexualidade também entre. Este argumento está presente na cabeça do protagonista de "Plataforma", obra do escritor francês Michel Houellebecq que acaba de ser lançado pela editora Alfaguara.
Um dos mais controvertidos escritores da literatura francesa contemporânea, Houellebecq, em "Plataforma", acende o pavio em questões como o livre comércio, o trabalho, o sexo, o turismo, a globalização, a riqueza, a miséria, a prostituição, o consumo, o neoliberalismo e muito mais.

Michel Houellebecq : seu livro traz uma abordagem sobre a ambição econômica relacionada  ao trabalho, o sexo, o turismo, a globalização, a prostituição e o neoliberalismo
Michel Houellebecq : seu livro traz uma abordagem sobre a ambição econômica relacionada ao trabalho, o sexo, o turismo, a globalização, a prostituição e o neoliberalismo | Foto: Divulgação



O romance traz a trajetória de Michel, funcionário público do governo francês pouco interessado pelas pessoas e o mundo. Homem de quarenta e poucos anos, recebe uma recheada herança após a morte do pai. Para cumprir o luto, decide fazer uma viagem aos paraísos naturais da Tailândia. No lugar, conhece o turismo sexual e se encanta com as jovens mulheres de disponibilidade fácil e bons preços.
Durante a viagem conhece Valérie, executiva de uma grande rede de turismo europeu. Os dois começam a viver juntos e Michel expõe a ela sua ideia de inserir o turismo sexual, algo que os europeus tanto gostam de maneira oculta, dentro dos pacotes de viagens. Ou seja, escancarar as coisas e ganhar dinheiro.

Michel é um personagem dúbio. Pode tanto parecer um completo babaca, em alguns pontos, como um sujeito de percepção aguçada em outros. É capaz de dizer: "Na maioria das circunstâncias da minha vida, fui mais ou menos tão livre como um aspirador de pó". É capaz de falar: "Quando os homens não têm vícios, é bastante difícil adivinhar o que lhes dá prazer". Ou pronunciar: "As relações humanas não são complicadas como se costuma imaginar: em geral são um negócio insolúvel, mas raramente complicado." E em seguida dizer: "Percebi que você não tem necessariamente que tomar a melhor decisão, na maioria dos casos, tomar uma decisão qualquer".

Enfim, uma ideia que parecia absurda desperta a atenção dos investidores da indústria do turismo tradicional. E um grande resort, na verdade um clube de prostituição, é construído na Tailândia com sucesso absoluto de ocupação. Os próximos dois resorts devem ser construídos no Brasil, e em Cuba, com novos investidores.

O único problema é que marmanjos islâmicos começam a escapulir de seus países para experimentar o paraíso do turismo sexual. Algo que deixa os radicais do Islã de cabelo em pé. Para resolver o drama, terroristas islâmicos resolver realizar um atentado que pode provocar a morte de centenas de pessoas no auge da temporada do resort.

Publicado originalmente em 2001, "Plataforma", de certa forma, antecipa o livro mais polêmico de Houellebecq: "Submissão" (Alfaguara, 2015). No romance, o autor imagina uma acirrada disputada eleição presidencial francesa onde o vencedor é um candidato muçulmano moderado. Ao assumir o governo, o novo presidente se revela um totalitarista. Perseguições e leis ditatoriais são instauradas e o país entra em colapso.

Autor de dezenas de livros que englobam romances, contos, ensaios e poesia, Michel Houellebecq nasceu em 1958. Pode ser descrito como o escritor francês contemporâneo mais amado e ao mesmo tempo odiado - tanto em seu próprio país como fora dele. De caráter iconoclasta, seus escritos não pretendem oferecem ordem, resolução ou resposta. Seu objetivo está centrado em acender o pavio e esperar pela explosão.


FRAGMENTO:

Veja bem, por outro lado há centenas de milhões e ocidentais que têm tudo o que desejam, mas não conseguem mais encontrar satisfação sexual: procuram o tempo todo e não encontram nada; são infelizes até não poder mais. Por outro lado, você tem alguns bilhões de indivíduos que não tem nada, passam fome, vivem em condições insalubres, morrem jovens e só têm para vender o próprio corpo e sua sexualidade intacta. É simples, realmente simples de entender: uma situação de intercâmbio ideal. A fortuna que se pode ganhar com isso é quase inimaginável: mais do que a informática, mais do que as biotecnologias, mais do que a indústria da mídia; não há setor da economia que possa se comparar.

(Fragmento de "Plataforma", de Michel Houellebecq)

Imagem ilustrativa da imagem A velha maneira de ganhar dinheiro
| Foto: Reprodução



SERVIÇO:
"Plataforma"
Autor - Michel Houellebecq
Editora - Alfaguara
Tradução - Ari Roitman e Paulina Wacht
Páginas - 272
Quanto - R$ 59,90

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