A VANGUARDA EM LIVRO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de dezembro de 2000
Juliana Monachesi Agência Folha 
Finalmente, Lygia Pape ganha um livro. A trajetória da artista, que é sinônimo de vanguarda brasileira dos anos 60 tanto quanto Hélio Oiticica e Lygia Clark, é registrada em publicação luxuosa da editora Cosac & Naify que chega às livrarias esta semana.
Concebido pela própria artista, o livro fica no limite da obra de arte, assim como os poemas visuais que Lygia Pape criou na década de 60. Ao longo de 336 páginas, as obras dialogam entre si sem interferência de textos, que estão reunidos ao final do livro: um ensaio de Guy Brett e trechos de escritos de Mário Pedrosa e Hélio Oiticica.
Com mais esse título, além dos seis novos volumes da série Espaços da Arte Brasileira que serão lançados hoje no Rio, a Cosac & Naify chega ao quinquagésimo livro sobre arte brasileira publicado em quatro anos. Para quem acompanha esse escasso mercado há alguns anos, o atual cenário configura um pequeno boom editorial.
O coordenador do curso de artes da Faap e curador, Marcos Moraes, lembra que o único foco de atenção das editoras até pouco tempo era a arte moderna brasileira. É importante trazer a discussão para o âmbito da arte contemporânea, afirma. Quantas foram as pessoas que puderam acompanhar o percurso de artistas como Edgard de Souza ou Cildo Meireles? Livros sobre eles são muito importantes no sentido de socializar o conhecimento. Além da Cosac & Naify, que publicou recentemente monografias sobre os dois artistas mencionados, editoras como a Edusp e a DBA possuem um segmento de livros de arte contemporânea brasileira.
Segundo o editor Charles Cosac, o critério para escolha dos artistas que serão tema de livros é também cronológico, ou seja, o conjunto das publicações pretende ser um panorama, mas envolve outras circunstâncias. A editora funciona como o pêndulo de um carrilhão, que oscila entre o artista consagrado e o jovem artista, entre uma visão e outra da arte. Assim, logo depois de estrear a editora em 1997 publicando um livro de desenhos de Leonilson, a Cosac lançou um livro de Tunga. Nesta prateleira onde convivem o neoconcreto Amilcar de Castro e o multimídia Arthur Omar, há planos para lançar livros sobre Waltércio Caldas, Iran do Espírito Santo, Vik Muniz, entre outros.
A maioria dos títulos contemporâneos tem participação do artista em sua elaboração. Grande parte do sucesso das monografias é o envolvimento dos artistas, afirma Cosac. Mas isso traz consequências ruins também. Segundo ele, os artistas protegem seus livros, pensando primeiro em esconder o que consideram pior e, depois, em não inviabilizar possíveis futuras publicações.
Para um nicho de mercado que começou do zero, estes problemas são pequenos. O maior entrave até agora são os preços: um livro da Cosac não sai por menos de R$ 50. Eu queria que custassem mais barato, mas existe um looby pela edição em capa dura, tanto por parte dos artistas, como dos autores como da própria gráfica que dá um desconto ínfimo quando se quer fazer o livro em brochura, afirma Cosac. Os livros custam para a editora, em média, R$ 120 mil.
Os livros da Edusp, em formato menor e edição mais simples, têm preços mais acessíveis, em torno de R$ 30. A coleção Artistas da USP, que concentra os títulos sobre arte contemporânea, custa para a editora entre R$ 20 e R$ 30 mil. O retorno não é muito grande, porque livro de arte nunca é best-seller, mas a longo prazo acontece dos livros tornarem-se obras raras, conta Plínio Martins Filho, presidente da Edusp.
A Cosac & Naify é uma editora deficitária e vem procurando diversificar as áreas de atuação para compensar equilibrar as contas.
A estratégia da Dórea Books and Art, segundo o editor Alexandre Dórea Ribeiro, é fazer livros institucionais. A editora tem publicados diversos títulos sobre fotógrafos brasileiros e é responsável pela reedição do livro Leonilson: São Tantas as Verdades, escrito por Lisette Lagnado.
Os livros da Edusp são, em geral, resultado de teses de mestrado ou doutorado dos próprios artistas. No início, publicávamos o livro sem nenhum texto, enfatizando que o conhecimento não é só escrito. Mas depois julgamos mais acessível fazer acompanhar de um texto as imagens de obras, explica Plínio Martins Filho.
Para Charles Cosac, por vezes a relação entre obras de arte e texto é mais a de um duelo do que a de um dueto. O texto é outra criação artística, por isso digo que o livro é do autor, não do artista. Mas ele gosta da idéia de fazer livros só de imagens. Cada vez desgosto mais dos textos.


