A universalidade brasileira de Moliere
A universalidade brasileira de Moliere
Na passagem do ano de 95 para 96, o diretor Eduardo Moreira e o dramaturgo Cacá Brandão passaram trabalhando, ou melhor, discutindo como seria o mais novo espetáculo da companhia. Única certeza até então era que Moliere estaria em cena. Leram e releram toda a obra do escritor francês, fizeram estudos exaustivos e chegaram a escrever 12 peças até o mês de setembro. Foi quando deu o estalo: centralizaram as baterias em O Doente Imaginário, visto até agora somente pela população da cidade de Tiradentes, no interior de Minas.
O Doente Imaginário encerra hoje sua participação no 6º Festival de Teatro de Curitiba. Pode-se dizer que é um outro espetáculo, se levar-se em conta as parcerias de Cacá Brandão e Eduardo Moreira. Eles homenageiam Moliere com este trabalho, e na sequência todos os artistas que dedicam sua vida à arte.
O Grupo Galpão sempre teve um quê de cores mineiras em seus trabalhos. Mergulhou de vez nas tonalidades em A Rua da Amargura, penúltima montagem da companhia, e parte agora para tons menos referenciais em O Doente Imaginário. Continua sendo brasileiro, brasileiríssimo, mesmo com árias de ópera e um réquiem especialmente preparados para o espetáculo.
Até mesmo Machado de Assis acabou entrando na história como inspirador de algumas situações que a peça pede. Como no enredo Moliere ressuscita e relembra passagens de sua vida, Cacá e Eduardo foram parar em Memórias Póstumas de Brás Cubas, que enfatiza o mesmo tema. Descobriram que tanto o francês como o brasileiro tinham uma mesma visão melancólica da vida, e com ela travaram uma batalha onde a arma era a galhofa.
A montagem traz em si o riso e a poesia. São contrapontos que ajudam a realçar o brilho de um e de outro, explica o dramaturgo. A poesia está nas intervenções de Brandão; a presença em cena do escritor francês é uma concessão ao sonho e ao irreal. Mescla-se a crítica que ele fazia à hipocrisia humana, e sempre muito atual, com o clima onírico proposto pelo grupo.
Para completar os atores tocam e cantam, mantendo a tradição da companhia. O instrumental é rico em variedade. Tem de tudo: teclado, acordeon, violão, castanholas (aliás, muita percussão), trombone, trompete. O cenário sonoro, pode-se dizer, é uma sinfonia popular brasileira.
A música é um elemento muito forte na peça, vai do bolero à ópera, diz Eduardo Moreira. Ajuda a bordar o painel onde convivem num mesmo plano o clássico de Moliere com a brejeirice do circo, e a fantasia brasileira.
O Doente Imaginário - de Moliere e Cacá Brandão, com o Grupo Galpão. Direção de Eduardo Moreira. Hoje (sexta-feira) no Teatro Ópera de Arame, às 20 horas. Ingressos a R$ 17,00 e R$ 10,00 (estudantes). O espetáculo faz parte do 6º Festival de Teatro de Curitiba.
(Z.C.L.)





