Francelino França
O jornalista norte-americano Mitch Albom costumava ficar no encalço de atletas famosos pelo mundo em função do trabalho, sem um break para descansar. Até o dia em que o sonho americano foi realizado, com a publicação do livro ‘‘A Última Grande Lição’’, um relato sobre os últimos dias de vida de Morrie Schawrtz, um pacato professor universitário. O sucesso foi estrondoso e meteórico. Imediatamente, a mídia estendeu um tapete vermelho e Albom começou uma interminável maratona pelas raias da fama. Na América, ‘‘A Última Grande Lição’’ ultrapassou a barreira dos 2 milhões de exemplares vendidos, números contabilizados em 1998.
O livro se tornou tão popular nos EUA que surgiram até propostas para transformar Morrie Schwartz em imã de geladeira, boneco e calendário. Ou seja, um ícone pop. Agora, o relato começa a ser filmado em Hollywood, e o roteiro passou pelo aval da família. Diretor e protagonista são mantidos em segredo. Consta que Dustin Hoffman, Jack Lemmon e Martin Landau estão cotados para protagonizar a película.
No Japão, Albom deu golpes de samurai na tradição oriental, ao vender 200 mil cópias nas primeiras semanas de lançamento. Os japoneses saborearam o best seller como iguaria requintada. Dentro da cultura nipônica, costuma-se omitir do doente sua real situação, notadamente quando a doença é fatal. A história de Morrie Schwartz expurgou os tabus japoneses.
No Brasil, ‘‘A Última Grande Lição’’ está em sua 8ª edição, ocupa as estantes de mais de 60 mil lares brasileiros, ficando em terceiro lugar no ranking da revista Veja, na categoria não-ficção. A editora Sextante, teve um feeling apurado ao comprar os direitos para a edição brasileira, antes de o livro estourar na América e no mundo. O editor se interessou pelo livro apenas pelo tema ‘‘professor reencontra ex-aluno’’.
Em visita ao Brasil para a divulgação do livro, Albom conversou com a Folha2 em São Paulo. Ele comparou sua experiência com Morrie Schwartz como divisor de águas em sua vida. Criticou, entre outras coisas, o american way of life.
À primeira vista, poderia ser um contra-senso. As vendas do livro vão muitíssimo bem obrigado, ele é notícia em todos os lugares em que aparece, e até a apresentadora Ophrah Winfrey se emocionou com o livro, dando a bênção mais importante da América. Uma indicação de Ophrah significa uma edição esgotada no dia seguinte. Mas quem está ensinando uma grande lição agora é o próprio autor.
Quando a editora forneceu um polpudo adiantamento, Mitch repassou à família de Morrie Schwartz. Nos EUA, pagar um tratamento de saúde domiciliar é muito dispendioso, e a família estava em apuros financeiros. Hoje, metade do lucro com as vendas é destinado aos Schwartz, a outra parte é dividida igualmente entre Mitch e uma fundação criada para ajudar jovens universitários carentes.
Na roda-viva da competitividade do mercado jornalístico norte-americano, Mitch Albom era considerado um autêntico workaholic. ‘‘A pior hora do dia eu dedicava à família, depois das 11 da noite’’, recorda. ‘‘Na América, só é feliz quem é jovem, famoso, e com dinheiro. Na verdade, nenhum desses valores vão te fazer feliz’’, filosofa comedidamente. Outra característica abominável, na concepção de Albom, é que os americanos passam de 6 a 7 horas do dia como escravos da televisão. ‘‘Se você não faz parte dessa turma, fica desconectado, não consegue conversar com as pessoas’’, complementa.
Um paradoxo surge aí. Mitch assistiu ao mestre pela tevê, no programa ‘‘Nightline’’, de Ted Koppel, declarando que estava atravessando a linha de chegada, em função da doença degenerativa que adquiriu. Isso fez com que o ex-aluno fosse reencontrar o seu mais querido mestre. Durante 5 meses, toda terça-feira, enfrentava duas horas de vôo para conversar com Morrie, o ex-professor que lecionou a mesma disciplina na faculdade por mais de 30 anos, sem valorizar a ascensão na vida social americana. ‘‘Se buscar algo para a vida, não encontrarᒒ, um aforístico do mestre, pinçado pelo escritor.
Como recorda Mitch Albom, os encontros de terça-feira faziam muito bem ao velho professor, faziam-no superar suas energias. Antes de Morrie partir, ele até solicitou a Mitch que visitasse seu túmulo às terças-feiras, que levasse uma bebida e um cobertor e ficassem ‘‘conversando’’.
‘‘Morrie não teve pensamentos de arrependimento, nem de autocomiseração’’, afirma. Ele costumava contar aos amigos que se tivesse mais um dia de vida saudável, acordaria de manhã, tomaria café com a mulher, iria passear no bosque, voltaria para casa, conversaria com amigos e dançaria a noite toda, tudo dentro dos limites da simplicidade.Mitch Albom vende milhões de exemplares de um livro que conta a história verídica de um professor otimista em fase terminal
Francelino FrançaSucesso do livro de Mitch Albom deve-se ao fato de tratar a morte de forma tranquila, como se o fim da vida pudesse ser comparado ao ocaso de um dia: ainda bonito ao pôr-do-sol

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