A um dia da Palma de Ouro
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sexta-feira, 20 de maio de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Cannes, especial a Folha 2 
Como sempre Cannes reserva um nicho para seus queridinhos, nomes jovens e recentes a desfilar aqui suas idiossincrasias chanceladas por uma curadoria que prefere arriscar-se com modismos nem sempre interessantes e preserva-se de críticas mais pesadas. E justificadas. O jovem canadense do Quebec, Xavier Dolan, tem 27 anos e seis longas no currículo, todos com passagens pela competição. Um deles, o melhor, é "Laurence Anyways", o único exibido em Londrina, no Com-Tour.
"Its Only the End of the World", seu trabalho mais recente, passou ontem na principal mostra competitiva. É a adaptação de peça teatral que, não por acaso, deve funcionar bem melhor no palco. Cinco personagens de uma mesma família compõem uma sinfonia de rostos quase sempre em primeiro plano. Por meio de longos monólogos e duetos nunca menos que exasperados, Dolan faz desse encontro uma bombástica montagem histérica equivalente à histeria de seus personagens.
Mesmo contando com elenco de peso Vincent Cassel, Marion Cotillard, Lea Seydoux, Nathalie Baye e Gaspard Ulliel , Dolan dá um passo em falso e tenta disfarçar a vacuidade de sua proposta existencialista com a sempre presente exuberância de seu discurso visual, aqui mais para incomodar do que algo necessário. No argumento, um drama familiar comum: um jovem doente volta à casa da mãe, dos irmãos e da cunhada para anunciar que sua morte está próxima. O tema é a reconciliação impossível, como impossível também é o regresso ao lar. Não se pode negar o talento de Dolan para dotar seus filmes de imagens inventivas. Mas o impacto de uma estética entre barroca e videoclipeira acaba asfixiando a consistência dramática do filme. O retrato dessas relações não encontra válvulas de escape, embora os atores busquem contornar essa clausura. E o espectador, apesar de entender perfeitamente o discurso que se quer contar, não suporta a perturbação sonora e o desequilíbrio. Ocorre que, para desgraça coletiva, uma história habitada por segredos e sussurros não pode ser contada apenas aos gritos.
Outra anomalia na seleção oficial é "The Neon Demon", de Nicolas Winding Refn, outro queridinho da casa que em 2013 realizou o ótimo "Drive" e em seguida fez o deplorável "Only God Forgives". O filme é uma provocação, uma fábula degenerada sobre a vampirização no universo fashion, aquele das top models e das passarelas. "The Neon Demon" é um perverso, alucinado conto de fadas saído da cabeça de um maníaco, que na verdade é antes um impostor. Sua história sobre a garota inocente e três bruxas terríveis (e canibais) metidas num entorno de vaidades onde se idolatra a beleza efêmera pretende também ser a crônica da experiência do próprio diretor em Hollywood, do autor supostamente puro que deve proteger-se dos canibalismos, das necrofilias e dos vampirismos do fashion business.
Difícil imaginar uma visão de mundo mais masculina, ou diretamente machista, nessa explicita, delirante, brutal metáfora do ambiente que retrata e que se revela ao longo da narrativa tão vazia quanto ofensiva. Em "The Neon Demon" um estilista diz, num dos raros diálogos, que a beleza manufaturada se diferencia de imediato da beleza genuína. Essas palavras podem ser tomadas para se referir diretamente ao que se está vendo. O filme parece fabricado em linha direta de robotização high tech, e em seu irritante pedantismo é prodiga fonte de citações o submundo bizarro no cinema de David Linch parece a mais recorrente.
E ontem foi dia de EUA, com assinatura de Sean Penn. Em "The Last Face", uma história de amor de dois médicos ativistas humanitários (Javier Bardem e Charlize Theron) se converte num modelo de cinema com boas intenções e (muito) más decisões.
Para a solenidade de amanhã, os prognósticos são nebulosos. Há favoritos, mas nenhum detém a hegemonia. Por isso, há várias chances de premiação de melhor filme, direção, roteiro, atores. Por isso, há boas chances de "Aquarius" sair daqui levando alguma recompensa para o Brasil. Filme e atriz merecem.


