A última liberdade possível
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de abril de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina 
A busca pela liberdade, anseio tão natural ao humano, é um dos temas mais recorrentes quando o formato é película. Contudo, poucos obras apresentam esta temática em sua complexidade, ressaltando a misteriosa origem de um bem que seria a realização máxima do homem estar liberto de si mesmo, das auto-convenções, preconceitos, conjecturas, enfim, nada que nos seja verdadeiro. Antes do Anoitecer, em cartaz em Londrina até o dia 19, revela-se um árido retrato de como esta liberdade pode ser atingida, mesmo que sob uma extrema passagem pela dor a incompreensão dos mais próximos.
Dirigido pelo artista plástico do Brooklyn novaiorquino Julian Schnabel, Antes do Anoitecer é inspirado na vida atribulada do poeta cubano Reinaldo Arenas (1943-1990), autor de El Mundo Alucinante, eleito melhor romance estrangeiro na França em 1969. Arenas era um escritor obsessivo, se expressava sob um desespero comum aos grandes escapistas, a quem a liberdade só era possível em universo próprio, recheado de desejos homossexuais. Um dos achados do diretor Schnabel, aliás, foi reconstruir o imaginário tresloucado do poeta, a quem atribuem a lista considerável de 5 mil encontros somente até os 25 anos.
Schnabel fez poucas concessões ao construir Before Night Falls (título original, homônimo ao livro de memórias do poeta): não pôde rodar em Cuba, pois o governo castrista não veria com bons olhos um retrato verdadeiro de seu país. As filmagens, que incluíram amigos como Hector Babenco, Sean Penn e Johnny Depp (em dois papéis), ocorreram em três cidades mexicanas: Merida, Progreso e Moricón, além de Nova York, onde Arenas passou o fim de sua vida. A formação pictórica do diretor, que havia estreado em 1996 com Basquiat, permitiu já em seu segundo filme uma quase linguagem própria, um pouco ainda referenciada nos cânones da linguagem cinematográfica, um pouco liberta das convenções da sétima arte o que rende os momentos mais sensíveis da película, como o episódio que registra a revolução embalada pela sinfonia de Gustav Mahler, aquela mesma melodia responsável pela imortalização de Morte em Veneza, a obra máxima de Luchino Visconti.
Nem tão profundo como a angústia dos personagens de Limite, de Mário Peixoto, nem tão pessimista quanto ao trágico destino do homem, como em Aurora de Murnau, Antes do Anoitecer configura-se como um estímulo ambíguo. Paralela a essa repressão totalitarista, em que Arenas é forçado a negar seus princípios, no fundo, no fundo, observa-se que nunca poderá ser retirado do homem seu bem mais precioso o universo fantástico que engloba todas as suas paixões, memórias, devaneios, ilusões, um último espaço reservado à liberdade plena. Aquela que geralmente apenas ouvimos falar. Aquela que Arenas conheceu a fundo, se bem que foi ela a responsável por sua morte.


