A última deusa viva
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de março de 1998
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
ReproduçãoEm 1995, 60 críticos convidados pelo jornal inglês The Guardian elegeram Katharine Hepburn a melhor atriz da história do cinema, encabeçando uma lista que prosseguia com os nomes de Greta Garbo, Bette Davis, Anna Magnani e Ingrid Bergman. Todas já morreram. Katharine permanece como a última deusa viva do cinema antigo. Ela bateu todos os recordes ganhando 12 indicações para o Oscar. Venceu quatro vezes o prêmio da academia, pelos filmes Manhã de Glória (1933), Adivinhe Quem Vem para Jantar? (1967), O Leão no Inverno (1968) e Num Lago Dourado (1981). Merecia mais.
Uma das grandes injustiças do Oscar foi não haver premiado a grande Katharine quando ela interpretou a matriarca de A Longa Jornada Noite Adentro (1962), de Sidney Lumet, adaptado de Eugene O Neill. Foi quando a genial comediante dos anos 30 e 40 virou uma verdadeira trágica.
Já se disse de Katharine que as modas passam e ela fica. Ela própria brinca que se tornou familiar como a Estátua da Liberdade. É uma instituição de Hollywood. Sua vida e arte têm sido dissecadas em livros. O mais recente chega às livrarias num lançamento da Editora Record. Leva seu nome: Katharine Hepburn. A autora é Barbara Leaming, que já escreveu uma biografia ambiciosa de Orson Welles. Tem 518 páginas, mais um encarte com 24 páginas só de fotos. Custa R$ 48,00. Traz novidades mesmo para quem leu Kate, de Charles Higham, Tracy and Hepburn, de Garson Kanin, Uma Mulher Ambiciosa, de Anne Edwards, e Eu - Histórias da Minha Vida, da própria Katharine. Não há um que não seja interessante, mas Katharine, como memorialista, é excessivamente discreta. Não fala mal de ninguém, nem faz grandes revelações sobre os homens de sua vida, a quem dedica simpatia irrestrita.
Barbara vai no nervo. Inspira-se em Freud e na psicanálise para explicar detalhes importantes da vida e da personalidade de Katharine. O avô e o irmão da atriz mataram-se. Ela nunca superou completamente o trauma produzido no dia em que encontrou o irmão enforcado no sótão da casa. Era uma garota. Ficou marcada. Ligou-se, como protetora, a homens de personalidade fraca e neurótica. Acredite se quiser: entram na categoria o ator Spencer Tracy, com seus olhos de leão ferido, e o diretor John Ford.
Sob aquela aparência de durão irlandês que cunhou com John Wayne toda uma lenda do western, Ford era um poço de problemas, autodestrutivo a ponto de viver bêbado. Katharine já havia contado (em Eu) o porre homérico que Ford tomou durante a rodagem de Mary Stuart. Barbara conta detalhes significativos do romance. Ford era casado - Katharine sempre teve uma queda por homens casados. O problema nem era esse, pois se fossem outros os homens eles poderiam, quem sabe, separar-se para viver um grande amor com ela. Nem Ford nem Spencer Tracy, a quem ela se ligou mais tarde, admitiam sequer a hipótese. Tracy, além de católico, como Ford, tinha o agravante de possuir um filho deficiente (surdo de nascença). Considerava-se, por isso, preso à mulher oficial.
Com Tracy foram quase 30 anos de uma união mantida publicamente secreta até a morte dele, em 1967. No enterro, a viúva foi a oficial, mas Barbara repete outra história que Kate já contou (em Eu, de novo). Tracy morreu ao lado dela, Kate fechou a tampa do caixão, mas limitou-se a acompanhar o cortejo funerário a distância, como heroína de melodrama.
Katharine nasceu em Hartford, Connecticut, em 12 de maio de 1907 (não obstante qualquer coisa que tenha dito antes em contrário). Tem 90 anos, portanto. Não anda muito rija. No ano passado precisou ser hospitalizada algumas vezes para tratar de problemas decorrentes da idade. O teatro veio antes do cinema e Barbara lembra, numa carreira irregular, cheia de altos e baixos no palco, como ela brilhou em peças de sucesso como The Philadelphia Story, cuja versão cinematográfica, Núpcias de Escândalo, interpretou mais tarde.
Sua estréia no cinema foi num filme de George Cukor, Vítimas do Divórcio, em que fazia a filha de John Barrymore. Veio em seguida Manhã de Glória, pelo qual ganhou o primeiro Oscar. Os primeiros papéis foram dramáticos, até que Howard Hawks a colocou na brilhante comédia Levada da Breca (1938). O público e os críticos descobriram que Katharine conseguia ser engraçadíssima, disparando como metralhadora os diálogos escritos por Ben Hecht.
Em 1940, ganhou o prêmio de melhor atriz dos críticos de Nova York por outra comédia: Núpcias de Escândalo. Foi seu quinto filme com Cukor, um grande amigo que voltaria a dirigi-la na série de comédias que ela interpretou em dupla com Spencer Tracy nos anos 40 e 50. Nelas, Katharine definiu um padrão de mulher moderna, feminista avant la lettre, que muito contribuiu para o seu sucesso. Na intimidade, a feminista era uma Amélia que carregava os homens nas costas. Nunca ninguém a ouviu queixar-se. O humor sempre foi, e ainda é, seu forte.
O livro demora um pouco a chegar na atriz, ocupando quase 200 páginas com a história de seus ancestrais (e o suicídio do avô). Pode ser lido depois como uma narrativa envolvente em que a heroína bem nascida e rica enfrenta adversidades sem perder a fibra. Não omite, agora no crepúsculo da existência de Katharine, a aflição causada pelo mal de Parkinson. Lembra que, em vários momentos de sua carreira, antes da consagração definitiva, ela foi considerada veneno de bilheteria. Em mais de uma oportunidade valeu-se da fidelidade de amigos diretores como Cukor e George Stevens (a quem deu a primeira oportunidade). A vida de Katharine é daquelas que se lê como um romance.


